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Porque Bacurau foi o melhor filme de 2019

Os números e a força do longa brasileira são uma verdadeira legítima defesa do setor que emprega milhões de pessoas no Brasil

CENA DE BACURAU (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Imagine um governante tão perigoso, e que representasse a sua própria gente tão pouco, ou menos que nada, que precisasse ser destituído para a sobrevivência geral da Nação. Imagine esse governante diante da força deste povo. Imagine que esta força pudesse lhe despir de todas as suas mentiras e bravatas e fakenews. Imagine agora que as próprias mentiras do governante o amarrassem e o carregassem pra bem longe…

Em parte, é sobre isso que se trata o filme “Bacurau” de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, sobre uma cidadezinha homônima que vira alvo de forças externas que gostariam de fazê-la desaparecer do mapa, talvez por medo de insurreição popular ou para facilitar o acesso estrangeiro às suas riquezas naturais. Estamos falando de força social e justiça popular.

Em meio a acusações recentes do governo na tentativa de detratar e desarmar o nosso cinema brasileiro em seu maior clímax histórico de inúmeros prêmios e competições internacionais, as salas lotadas de “Bacurau” foram prova viva de um diálogo real com seus espectadores. Sem falar que gerou 800 empregos diretos e indiretos, levou mais de 730.000 pessoas aos cinemas e teve uma renda de mais de 11,2 milhões de reais, de acordo com a distribuidora Vitrine Filmes.

Um sucesso inserido no mesmo setor de cultura brasileira que equivale a 2,5% do PIB, em torno de 170 bilhões de reais, empregando cerca de 5 milhões de pessoas, entre formais e informais, ou quase 6% de toda a mão de obra brasileira*.

OS DIRETORES JULIANO DORNELLES E KLEBER MENDONÇA FILHO FILMAM EM BARRA, NO SERTÃO DO RIO GRANDE DO NORTE. FOTO: VICTOR JUCÁ

Mas isto não se deu apenas por ganhar 10 prêmios internacionais, incluindo o Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2019. Nem por se pronunciar politicamente no contexto da trama ficcional. Seja pelas micropolíticas afirmativas de gênero, raça, sexualidade, classe e territorialidade, bastante presentes aqui, ou pela tenebrosa necropolítica atual, mais do que nunca, precisamos vencer o velho estigma de que nossa cultura é “viralata” perante o “pedigree” do que vem de fora, como já defendiam nomes como Glauber Rocha e Paulo Emílio Salles Gomes.

Há aqui um poderoso acervo de influências do nosso próprio Cinema Novo, como de “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” de Glauber Rocha, na utilização de plano-sequência em visões panorâmicas da beleza natural do cangaço como gênero de luta, calcado em Lampião, Maria Bonita, Corisco e Dadá (todos presentes em Lunga, de Silvero Pereira).

“Bacurau” experimenta também com ares high-tech e sci-fi, com signos de “O Bandido da Luz Vermelha” de Rogerio Sganzerla” e “O Quinto Poder” de Alberto Piarelisi, falando sobre manipulação de massas e mensagens subliminares pelas mídias de comunicação. Além de toques de fantástico, como de “Hitler 3° Mundo” de José Agrippino de Paula, “Feminino e Plural” de Vera de Figueiredo e “Orgia ou o Homem que Deu Cria” de João Silvério Trevisa. Ou até remissões diretas ao terror e ao horror psicológico, como nos filmes de Zé do Caixão e Ivan Cardoso.

O sangue excessivo, neste caso, não era para assustar, e sim purificar, para unir; um sangue brasileiro, cujo valor só lembra no dia a dia quem tem o seu próprio derramado também. Um sangue de cinema social.

Ótimo exemplo aqui é a antológica cena dos personagens sudestinos (Karine Teles e Antonio Sabioa, marcantes) que se aliam aos estrangeiros contra os cidadãos nordestinos – numa grande desconstrução crítica da branquitude como visão hierárquica por default, como se “brancos” fossem a regra e outras raças a exceção, logo num país onde a maioria da população é negra e assassinada por violência policial.

Isto porque não é apenas nosso cinema brasileiro que está lutando contra o fascismo dentro e fora das telas, mas sim todos os cidadãos. A linguagem do cinema pode unir os filmes numa grande família imortal, contudo, são seus espectadores, a cada geração, que interligam a catarse coletiva que uma obra pode ou não gerar.

 

* Compilação de Joana Oliveira no El Pais.

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