Colunas

Ter o bolsonarismo sem Bolsonaro, mas se preciso, com ele mesmo

“Bolsonaro está entregando aquilo que prometeu. Se para receber o que quer a classe dominante vai ter que gastar mais perfume, ela não vai se importar”. *Por Patrick Campos

Foto: Fernando Pereira

Este é o sonho de consumo dos setores das classes dominantes que, no afã de colocar fim ao ciclo petista, liquidando com as políticas de ampliação de direitos e distribuição de renda, incompatível com o aumento permanente de sua taxa de lucros, ajudou a eleger Bolsonaro.

No meio do caminho, largaram seus candidatos preferidos em 2018 (Alckmin e Marina) para tonificar a campanha do ex-capitão ligado às milícias cariocas. Mesmo tentando manter seu fino trato, principalmente por meio de seus veículos de comunicação, as elites chafurdaram na lama das Fake News e passaram pano para as barbaridades bolsonaristas, como a defesa de torturadores e da ditadura militar. Ignoraram até o terraplanismo de seus aliados mais próximos. Tudo para ter alguma chance de derrotar as forças populares.

Ao mesmo tempo, foram à tropa de choque do Lavajatismo (hoje desmoralizado), da criminalização da esquerda e da caçada para prender o ex-presidente Lula. Estes setores das classes dominantes, que reúne entre outros, oligarquias regionais, latifundiários e figuras ligadas ao capital financeiro, mesmo possuindo diferenças entre si, encontraram os pontos de equilíbrio necessários para uma aliança tática contra a esquerda.

Acontece que, no momento em que o governo Bolsonaro explicita e escancara sem nenhum constrangimento sua essência, com a ameaça de um novo AI-5, o descaso com o meio ambiente e os vínculos com os assassinos de Marielle, para citar apenas alguns exemplos, parece surgir entre alguns a ilusão de que aquela aliança possa se desfazer.

Ou seja, a ilusão de que o governo Bolsonaro é tão absurdo que seus próprios aliados não o tolerariam. De fato, o governo Bolsonaro é um absurdo que não deveria sequer ter existido. No entanto, não podemos cair na ilusão de que o caminho para derrotá-lo passa por alianças com gente que ajudou a elegê-lo. Ainda mais gente que, apesar de não ter o DNA dos Bolsonaro, tem absoluta concordância com sua política econômica.

E é justamente isso que faz o bolsonarismo continuar tendo apoio de todos os setores das classes dominantes que o elegeram, mesmo que o próprio Bolsonaro desfira ataques contra eles. Vejamos o caso dos meios de comunicação. Bolsonaro declarou guerra à Rede Globo e a Folha de São Paulo. No entanto, basta assistir ou ler estes veículos para percebemos o malabarismo que é feito para atacar Bolsonaro, mas preservar o governo.

A edição da Revista Veja que vai às bancas no próximo dia 13 de novembro, mas já disponível virtualmente, é talvez o exemplo mais caricato dessas acrobacias. Colocam como matéria de capa “O porteiro do ‘seu Jair’”, dando destaque à ligação existente entre a família Bolsonaro e os assassinos da vereadora Marielle Franco.

No entanto, em seu editorial intitulado “Carta ao leitor”, Veja começa afirmando a existência de “um sopro de esperança”. Para a revista “o aumento da pobreza, em decorrência do desemprego – refletido nas tristíssimas e imensas filas formadas por aqueles que procuram vagas de trabalho -, é apenas uma das consequências das desastrosas opções de política econômica dos governos petistas de Lula e Dilma Rousseff”.

Ou seja, para tentar justificar o que afirmará em seguida, Veja retoma o carcomido argumento de que o PT “quebrou o Brasil”, afirmação esdrúxula que não se sustenta com um acesso ao Google e aos dados oficiais da geração de emprego e renda nos governos petistas.

Mas na ausência de qualquer outro argumento que sirva de base para sua afirmação seguinte, é à hipotética “herança maldita” do PT que precisam recorrer. E aí vêm a cereja do bolo, para Veja “apesar de suas várias falhas de comunicação, posturas discutíveis e atitudes equivocadas, é preciso reconhecer que o governo de Jair Bolsonaro vem exibindo coragem para mexer nas enferrujadas engrenagens que hoje amarram a produção de riqueza no Brasil”.

O que Veja chama de “posturas discutíveis” e “atitudes equivocadas”, na verdade, possui nome bem diferente: crime. Afinal é disso que se trata quando se faz apologia à tortura ou se atribui a responsabilidade pela queimada na Amazônia às ONGs ou o derramamento de óleo no litoral nordestino ao Greenpeace. Assim como é crime interferir em investigações, como ocorreu na retirada dos equipamentos de gravação do condomínio em que o presidente possui casa para impedir o acesso da polícia.

Ou seja, para poder dormir com os porcos, Veja coloca perfume no chiqueiro. É justamente essa a postura da maioria dos setores das classes dominantes. Eles possuem absoluto acordo com as políticas de Bolsonaro e acham apenas que ele deveria ser menos ele, pois é ele e não sua política que está equivocada.

Acontece que, para a vida da maioria da classe trabalhadora brasileira, as duas coisas não se separam. E é a política de Bolsonaro, destacadamente sua política econômica, que está conduzindo à morte e ao desespero milhões de pessoas. Enquanto isso, os lucros dos mais ricos crescem como nunca e as formas de mobilização e protesto ficam cada vez mais fragilizadas com o desmonte das organizações populares e o aumento da repressão. Ou seja, Bolsonaro está entregando aquilo que prometeu. Se para receber o que quer a classe dominante vai ter que gastar mais perfume, ela não vai se importar.

*Patrick Campos é Advogado, mestrando em Educação pela Universidade de Pernambuco e militante do PT.