Entrevistas

Entrevista especial com Eduardo Saron (CNPC/Minc)

“mais cultura permanente e a longo prazo significa uma nação mais crítica e uma democracia mais forte”, afirmou Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, para o Ponto Crítico.

A inexistência de uma política cultural que democratize, apoie e estimule as produções de artistas das mais diversas linguagens no município de Petrolina encontra no Aldeia do Velho Chico – XII Festival de Artes do Vale do São Francisco, uma espécie de oxigênio diante de um oceano de negligências do poder público. Idealizado e promovido pelo SESC, o Aldeia está sendo realizado desde o dia 31 de Julho e segue até o dia 20 de agosto. O projeto reúne e difunde “manifestações culturais, espetáculos teatrais, musicais, dança, além de uma vasta programação de literatura, cinema, artes plásticas, gastronomia e atividades formativas – a exemplo de palestras, residências artísticas, oficinas de capacitação e intercâmbios de grupos” (cf. Ascom), da região do Vale do São Francisco e de outras regiões do país.

por Lara Micol (41)

[foto: Lara Micol]

Para discutir o tema “Desafios da Gestão Cultural”, o Aldeia contou com a presença de Eduardo Saron, diretor-superintendente do Itaú Cultural, membro do Conselho Nacional de Política Cultural do Ministério da Cultura (CNPC/Minc) e Secretário-geral da Associação Nacional de Entidades Culturais Não Lucrativas (Anec). A palestra realizada no Teatro Dona Amélia contou com a participação de produtores culturais e artistas da região.

Segundo Jailson Lima, coordenador do Festival, “a presença de Saron é muito importante nesse momento porque vem contribuir com o trabalho de profissionalização da arte, já realizado pelo SESC em Petrolina. A palestra dele vem nos auxiliar a pensar criticamente a nossa posição diante do cenário político atual, bastante caótico na nossa cidade, sem política de incentivo, e a lutarmos pela ampliação desses espaços, mesmo com esse serviço tão importante que o SESC presta a comunidade. O SESC sozinho não dá conta de tantas demandas”, afirmou.

por Lara Micol (68)

[foto: Lara Micol]

Em entrevista concedida ao Ponto Crítico, Saron expressa sua visão sobre a importância e os desafios da política cultural no país.

Por Gilmar Santos

PC: Como você avalia esse momento aqui no Aldeia do Velho?

EDUARDO SARON: Primeiro, absolutamente frutífero, na medida que você tem um encontro aqui no Aldeia, mais de 80 gestores, produtores, artistas da região nós temos um grupo qualificado debatendo e discutindo políticas públicas para a cultura num lugar tão qualificado que é o SESC, o sistema S, e me parece que é muito profícuo e muito produtivo, ainda mais nesse momento em que a sociedade precisa tanto de cultura para avançar em questões democráticas e para fortalecer as políticas públicas.

PC: A política cultural é um desafio por que os governos não compreenderam o papel da cultura, é um desafio por que a sociedade não está educada para compreender, como é que você vê essas questões?

EDUARDO SARON: é um desafio porque é uma soma de incompreensões, primeiro é preciso que a sociedade, o governo e os artista e produtores culturais compreendam a cultura como central no desenvolvimento de qualquer política pública. Mais cultura de maneira geral, a médio prazo, significa menos necessidade de recursos pra penitenciárias, mais cultura permanente e a longo prazo significa menos necessidade de recursos pra segurança pública, mais cultura permanente a longo prazo significa jovens mais qualificados para o mundo do trabalho, mais cultura permanente e a longo prazo significa uma nação mais crítica e uma democracia mais forte. Então esta compreensão, que é uma compreensão que exige sempre um pensamento estratégico e uma atuação permanente e de longo prazo é uma compreensão que precisa ser assimilada pela sociedade, pelos artísticas, pelos produtores, pelos governantes, e sabendo de que no primeiro momento pode até ter uma sensação que é recurso sendo desperdiçado, mas no segundo momento não haverá dúvida que será o melhor dos investimentos para o Brasil ou qualquer sociedade.

PC: Qual balanço você faz desses últimos anos, principalmente nessas duas últimas décadas em relação a políticas de cultura para o país, que tipo de avanço podemos identificar?

EDUARDO SARON: a gente avançou muito nas últimas décadas no quesito democratização do acesso á cultura. Certamente por mais que muita gente precise ter mais acesso e acesso por mais vezes à cultura, certamente a gente avançou muito na democratização do acesso à cultura. Mas é preciso que a gente dê um passo à frente, e não entenda só sob o aspecto da democratização do acesso, entenda sobre o aspecto da democracia cultural, e entender sob o aspecto da democracia cultural significa dar mais condições para que as pessoas também sejam protagonistas, possam se sentir parte do fazer cultural, tanto quanto possam se sentir parte do consumo cultural. Então, você agora balancear essas duas questões, o protagonismo cultural e o acesso à cultura são fundamentais para a gente pensar esse passo a mais, o passo da democracia cultural.

PC: Em tempo de eleições municipais, com certeza, a cultura é um desafio para as políticas locais. Como é que você analisa o papel do vereador, do prefeito, nessa questão?

EDUARDO SARON: a cultura, a arte, ela acontece para as pessoas, e as pessoas não estão no Estado, as pessoas não estão na União, as pessoas estão nas cidades, então pensar a cultura a partir de uma gestão cultural municipal potente, é fazer cultura para as pessoas. Então esse é um momento apropriadíssimo para que os dirigentes culturais, os protagonistas da cultura, os artistas produtores possam ir até os candidatos, seja à câmara municipal, seja a prefeitura dos municípios, e exijam um conjunto de políticas para a cultura e exijam também que esses candidatos declarem qual é o seu programa para a cultura, porque cultura se dá nas cidades, é preciso que os candidatos a prefeitos, os candidatos nas câmaras municipais de vereadores tenham o compromisso com política de cultura.

PC: Como você vê atualmente a situação da política de cultura nacional e, principalmente, esse incidente envolvendo o ministério da cultura?

EDUARDO SARON: o cenário precisa avançar no sentido de entender a cultura como única forma de se fortalecer a democracia brasileira, sem cultura, sem artista, sem arte, sem provocação de pensamento crítico. Nós temos muita probabilidade de termos uma democracia que cada vez mais frágil, então é preciso que nós da sociedade que trabalhamos com cultura, os artistas que trabalham com cultura, exijam também do governo federal uma política sólida, e uma política sólida que passe pela FUNARTE renovada, que considere as necessidades das universidades, inclusive em abordar o tema da gestão cultural, para que a gente tenha uma política para a cultura mais forte, mais potente.

PC: A mensagem de que é um golpismo o que está acontecendo passa de alguma forma pela cultura?

EDUARDO: uma mensagem que passa pela cultura é a mensagem de não radicalização, esta radicalização seja para que lado for, é sempre nefasta para o país, e a única forma da gente encontrar um espaço de diálogo, um espaço de construção, é por meio da arte e da cultura, então é preciso que os gestores, os produtores compreendam e pressionem inclusive os políticos nas várias esferas, nos vários poderes… de que fortalecer a cultura é diminuir a radicalização…até aumentar a criticidade que é importante, mas é diminuir a radicalização para fortalecer a democracia.