Patrick Campos

Onde foi parar seu voto? Em patos ou em cisnes?

“Em tempos onde a política aparenta ser um lago recheado de patos, ser cisne tem sido extremamente difícil”. *Por Patrick Campos

Faça o seguinte exercício: escreva em um pedaço de papel os nomes de quem você votou nas duas últimas eleições. Depois pergunte a pessoa que estiver ao seu lado se ela conhece todos eles. Se você conseguiu lembrar, parabéns! Se quem estiver com você também, podem se considerar membros de uma parcela cada vez menor da população brasileira.

As pesquisas sobre o voto no Brasil demonstram que tem crescido o número de pessoas que simplesmente não lembram em quem votaram.

Em 2010, uma pesquisa realizada pelo DataFolha, revelou que 30 por cento dos eleitores não lembravam de seu candidato. Em pesquisa[1]semelhante realizada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) constatou-se que no caso dos deputados estaduais e distritais a situação era ainda pior, pois a maioria não lembrava seu candidato.

Em 2014, outra pesquisa[2], agora feita pela consultoria Expertise, demonstrou que 44% dos eleitores não sabiam mais em quem tinham votado para deputado federal, 43% para deputado estadual e 38% para senador.

Estudo ainda mais completo realizado pela ESEB[3] (Estudos Eleitorais Brasileiros) também em 2014 revelou que “em 2002, cerca de dois meses após as eleições, mais de 26% dos eleitores não se lembravam mais em quem haviam votado nos cargos de deputado estadual/federal; em 2006, este número pula para mais de 43%; em 2010, fica superior a 33%; e, em 2014, volta para a casa dos mais de 40%”.

Seguindo esta tendência e trazendo para realidades mais particulares, como o caso de Petrolina, não seria equivocado afirmar que o cenário tende a ser muito semelhante. Afinal, contrariando o desejo de cerca de 70% dos eleitores nestas mesmas pesquisas afirmam um desejo de mudança, reclamando da qualidade dos políticos atuais, na última eleição municipal 12 dos 19 vereadores foram reeleitos, sendo alguns com as maiores votações entre todos.

Logo, podemos concluir que: ou os eleitores sabem muito bem em quem votaram em 2012 e aprovaram o trabalho dos parlamentares, garantindo sua reeleição em 2016, ou de fato, parcela expressiva do eleitorado esqueceu em quem votou e não utilizou nenhum critério de avaliação para votar novamente.

Evidente que para chegarmos a uma resposta mais próxima do real seria necessário uma boa pesquisa, com uma metodologia capaz de captar os diversos aspectos que levaram ao voto. No entanto, mesmo desprovidos momentaneamente deste instrumento, passados seis meses da nova legislatura e iniciado o primeiro recesso, a sensação é de que não foi pela aprovação do trabalho dos parlamentares que aqueles foram reeleitos, pois o balanço não é dos melhores.

Assim, nos colocamos diante de uma constatação extremamente delicada, a de que mesmo acreditando que o sistema político e os próprios políticos estão aquém da capacidade de solucionar os problemas (e em grande medida são partes deles), esta crença não se materializa na urna, pelo contrário, ela é responsável por legitimar a continuidade das coisas como estão.

Esquecer em quem votou é apenas um dos inúmeros sintomas de uma doença terrível, que é a despolitização. Esta vem se constituindo num violento processo ideológico de afastamento da população da política, conduzido justamente por aqueles que há tempos se mantém nos espaços de poder.

Com uma sociedade mais politizada, com acesso a cultura e a educação que não sejam voltadas para o mercado e o consumo, a preocupação com quem ocupa os espaços públicos e de poder tende a ser muito maior.

Assim, é preciso reconhecer que quem tem conseguido se sair bem no sistema atual, fará tudo que for possível para que ele continue assim. Mais que isso, deverá dispor de todas as suas forças para que nada venha a ameaçar a “ordem”.

Faz parte deste esforço a disseminação de ideias como a de que todos os políticos são iguais, de que política, futebol e religião não se discutem e de que tudo sempre foi assim e nada nunca mudará.

Contribuem para essa disseminação os grandes e médios veículos de comunicação, em sua quase unanimidade, vinculados justamente a políticos e empresários que dependem da existência destas ideias.

É por isto que quando alguém consegue furar a bolha e romper com este jeito de fazer as coisas, rapidamente o sistema levanta suas defesas. Não tarda em surgir ataques que classificam a conduta diferenciada como “birrenta” ou equivocada.

Para quem gosta de contos infantis, basta lembrar-se da história do patinho feio. Perseguido pelos irmãos e pelos outros bichos por ser diferente, o patinho feito revela-se no final ser diferente por se tratar de um cisne. No conto, acabamos com pena dos patinhos, incapazes de reconhecer o belo por não ser igual.

Em tempos onde a política aparenta ser um lago recheado de patos, ser cisne tem sido extremamente difícil. Principalmente quando a maioria do povo não consegue diferenciar um do outro e os patos disseminam que ali no lago todos grasnam.

Assim, uma boa forma de refletir sobre o momento atual e não se deixar enganar ou desesperançar é buscar na memória em quem você votou, é saber onde foi parar o seu voto, se num pato ou num cisne. Mas principalmente, se você sabe diferenciar um do outro, pois nessa história quem sempre acaba pagando o pato somos nós.

__________________________________________

[1] http://www1.folha.uol.com.br/poder/837795-pesquisa-indica-que-parte-dos-eleitores-ja-nao-lembra-em-quem-votou-nas-eleicoes.shtml

[2] https://fernandorodrigues.blogosfera.uol.com.br/2014/09/30/44-nao-se-lembram-em-quem-votaram-para-deputado-federal-em-2010/

[3] http://revistapesquisa.fapesp.br/2015/09/15/uma-relacao-dificil/

 

*Patrick Campos é graduando em Direito pela Universidade Estadual da Paraíba. Foi diretor da União Nacional dos Estudantes, é virginiano e rubro-negro pernambucano.