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O dia da mulher, dia de flores para quê? Reflexões sobre corpo, mulher e democracia

Lutemos pela democracia, mas também lutemos para deixá-la forte, reconhecendo os direitos das mulheres e construindo uma igualdade que se efetive nas relações corpo – estado – justiça – sociedade – sujeitos de diversos gêneros, etnias, religiões e sexualidades e que se extingam, num futuro não muito distante, as classes sociais. Hoje é mais um dia de luta.*Por Cristiane Crispim

O dia da mulher nasce da memória de uma luta que tem como contexto a exploração do trabalho resultante da chamada revolução industrial. Mulheres grevistas que reivindicavam por melhores condições de trabalho, receberam como resposta a violência massacrante da polícia, do estado. Hoje não há o que comemorar. Não é o caso de ser pessimista e ignorar as conquistas das mulheres que vieram antes e pagaram com suas vidas para nossas demandas terem visibilidade e, para que juntas, pudéssemos avançar nas conquistas de direitos. Vivemos no mundo violências físicas e simbólicas que se repetem vergonhosamente na história. No país, efeitos de um golpe misógino aplicado com requintes midiáticos de crueldade e travestido de legalidade, retiram direitos trabalhistas e previdenciários, sobretudo de mulheres negras. Hoje, uma mulher é espancada a cada 2 minutos e assassinada a cada 2 horas.

Hoje ainda é dia de luto e de luta. As flores ofertadas no dia da mulher cheiram a morte para mulheres e homens de consciência política sobre este dia e perfumam o cinismo dos assassinos.

Essa banalização do dia da mulher – que reforça estereótipos e “homenageia a figura feminina” virtuosa e heroína que se sacrifica pela família, a mulher delicada, a bela e recatada e lhe oferece flores e bombons – silencia os gritos de dor das mulheres queimadas na fábrica de Nova York em 25 de março de 1911 e de todas as outras violentadas em seus empregos, nas casas, nas ruas, na fogueira da inquisição religiosa e midiática, torturadas e mortas pelos instrumentos institucionais da sociedade patriarcal.  A romantização deste dia, seja pelo mercado ou pela política institucional, apenas esvazia e silencia o sentido do grito revolucionário da greve das tecelãs de São Petersburgo, deflagrada em 8 de março de 1917 e que consagrou o Dia Internacional das Mulheres. As mulheres pararam um sistema explorador para gritar que quem produz tem mais valor do que quem detém os meios de produção e tivemos em seguida a Revolução Russa.

Junto a reivindicação trabalhista que deu origem ao dia da mulher, pelo seu protagonismo na luta, compreende-se que ser mulher em uma sociedade patriarcal demanda pautas específicas e por isso uma luta por igualdade de direitos denominada feminista. E nessa batalha, é imprescindível lembrar que em todas as pautas o corpo feminino é o território disputado.  O corpo da força de trabalho – lembrando que as mulheres têm a mão de obra duplamente exploradas na nossa sociedade com o consenso e participação de nossos pais, maridos e filhos. O corpo da força reprodutiva, da capacidade de gerar vida em seu ventre. O corpo do sexo e do gozo.

Pelo corpo passa nossos questionamentos e proposições sobre o que é ser mulher enquanto uma pessoa livre. A autonomia econômica, sexual e reprodutiva se dá pelo corpo e sua expressividade é instrumento de luta potente capaz de transfigurar a realidade opressora. A arte feita por mulheres é parte importante desse percurso. Se constitui uma grande ameaça, um corpo que, em processos individuais e coletivos, se mobiliza para a revolução e reivindica o direito à vida, à dignidade no trabalho, à liberdade sexual e reprodutiva, reivindica o direito sobre seu corpo e o destitui do homem – que dele vem se apossando por meio de violências múltiplas e de uma cultura que naturaliza a ideia da mulher como sua propriedade.

A liberdade da mulher sobre seu corpo em todos esses aspectos é determinante para o real aprofundamento de nossa democracia. Isso significa que, além de lutar contra o golpe financiado pelo neoliberalismo e suas antirreformas, devemos lutar por um estado que de fato proteja o corpo da mulher contra as violências, sendo capaz de aplicar a justiça a seus algozes e por uma sociedade que não culpe a mulher pelo estupro sofrido. Resgatemos a democracia, mas também é preciso aperfeiçoá-la descriminalizando o aborto, dando o direito de escolha a mulher sobre o seu corpo, direito básico, negado pela hipocrisia de uma sociedade machista em que “se homens engravidassem, o aborto seria um sacramento”.  Lutemos pela democracia, mas também lutemos para deixá-la forte, reconhecendo os direitos das mulheres e construindo uma igualdade que se efetive nas relações corpo – estado – justiça – sociedade – sujeitos de diversos gêneros, etnias, religiões e sexualidades e que se extingam, num futuro não muito distante, as classes sociais. Hoje é mais um dia de luta.

 

*Cristiane Crispim

Produtora, Atriz, Arte-educadora