Coluna K

Fidel Castro e Russell Shedd

Dois homens influentes e bastante distintos acabam de falecer: o revolucionário Fidel Castro e o teólogo Russell Shedd. Quais seriam os pontos em comum entre eles?

Delcides Marques*

shedd-fidel-jpg

                                                                                                              [Imagens da internet]

Dois homens importantes faleceram nesses últimos dias: Fidel Castro, “El Comandante”, e Russell Shedd, o “Doutor Bíblia”. O primeiro morreu dia 25 de novembro, aos 90 anos, em Havana, Cuba. O segundo, no dia seguinte, aos 87 anos, em São Paulo, Brasil. As recentes notícias acerca desses falecimentos produziram impactos consideráveis entre grupos e ambientes sociais distintos. Uma das mortes obteve divulgação e interesse nos mais diversos meios de comunicação em todo o mundo, enquanto a notícia da outra morte circulou mais especificamente no meio religioso protestante. Um era revolucionário, o outro, um pastor.

De todo modo, foram dois sujeitos indiscutivelmente significativos, cada um a seu modo, e guardando as devidas e necessárias proporções de diferenças entre eles. Algumas das muitas distinções passíveis de catalogação são evidentes. Afinal de contas, e logo na própria definição do que eram, contata-se que um deles havia sido militante e político socialista, líder da revolução cubana, enquanto o outro havia sido biblista e teólogo batista conservador. Realmente, e ao que se poderia aventar nesse primeiro momento, não haveriam significativos aspectos comuns a esses dois homens. Nesse sentido, teríamos de um lado alguém devotado exclusivamente à vida política e, de outro, apontaríamos para um sujeito que trilhou apenas o caminho da vida religiosa. Um homem da política, outro homem da religião.

Apesar disso, eu pretendo apostar numa breve aproximação entre certas características a eles atribuídas. Para desespero de alguns que os manteriam o mais longe possível, eu vou cometer a heresia de compará-los, e com maior agravante ainda, avizinhá-los em determinados pontos.

É preciso dizer que, antes de mais nada, e em torno de ambos, foram produzidas imagens díspares. O dualismo ocasionado em torno deles implicava que ambos fossem amados por uns e rejeitados por outros. Eles conseguiram provocar sentimentos tão distintos, ainda que em todos os casos, fossem vistos inequivocamente como lideranças que não poderiam ser desconsideradas. Fidel Castro provocou reações demasiadamente ambíguas: em algumas referências, ele foi visto como um ícone revolucionário a ser cultuado mas, em diversas outras, foi tratado como um líder repressivo a ser superado e esquecido. O pastor Russell Shedd, por sua vez, também não foi unanimidade. Apesar de biblista renomado e reverenciado nos círculos dos especialistas, foi também tomado nos meios progressistas de teologia como um tendencioso teólogo conservador e fundamentalista. Aliás, era exatamente como conservador que ele se definia. De todo modo, e como se vê, ambos provocavam reações ambíguas em torno de si, ao mesmo tempo em que produziam respeito entre seus pares ou seus críticos.

Poder-se-ia abordar, no caso de Russell Shedd, e mesmo sem mencionar controvérsias com teólogos progressistas, uma polêmica instaurada por um teólogo que se assume fundamentalista e contesta a Bíblia Shedd1. Contudo, uma experiência que eu tive com ele pode ilustrar esse ponto. Era o ano de 2003 quando, prestes a publicar um livreto de teologia, a editora sugeriu-me que o prefácio fosse produzido por Shedd. Eu fiquei empolgado com a ideia e prontamente lhe enviei uma cópia do texto. Em três dias eu recebi a resposta. O seu retorno apontava principalmente para os pontos discordantes e para a sua desistência de escrever o preâmbulo ao meu trabalho. Ficou claro para mim que ele não estava disposto a abrir uma conversa sobre as questões que o desapontavam. Suas críticas foram diretas, fechadas, resolutas, ortodoxas, definitivas. Eu, porém, estava imbuído de motivos outros. Havia acabado de me encantar com Rubem Alves. E a experiência com Shedd mostrou-me claramente que o caminho que eu estava trilhando me levava para outras reflexões e posturas. De todo modo, não perdi a admiração por Shedd: esse homem responsável pela formação de muitos líderes protestantes no Brasil, por meio de sua atuação principalmente na Faculdade Teológica Batista de Perdizes (SP), e pela consolidação de publicações teológicas pela editora que ele presidiu por muitas décadas: Edições Vida Nova.

Fidel, por sua vez, proferiu seu último discurso no mês de abril, na sessão de encerramento do VII Congresso do Partido Comunista de Cuba Ele reiterou em sua fala, o privilégio de ser revolucionário. Dessa vez, e com um inabitual discurso curto, ele falou também sobre sua trajetória, mas concedeu efetivo destaque às suas preocupações sobre o futuro da humanidade e da terra. Logo após, ele terminou suas palavras com a defesa de que os empreendimentos e melhoras necessários ao povo cubano deverão se realizar, tendo em vista a “marcha imparável” à qual ele se vincula com seus companheiros e com o próprio povo cubano. Assim, e mesmo depois de décadas de embargos comerciais estadunidenses, desaparecimento do bloco soviético, rejeições ao seu modelo de comunismo e mesmo sua idade avançada, Fidel manteve seu discurso vívido, lúcido, entusiasmado, convicto.

Esse é um aspecto fundamental de conexão desses dois líderes, tanto Fidel quanto Shedd foram realmente homens de convicção. E muitas das reações duais que eles produziram – entre seus parceiros ou críticos – estavam implicadas justamente com a postura intransigente que os acompanhava. Assim, esses dois homens, apesar de terem projetos e missões diferentes, possuíam um traço comum: eram homens convictos. Indiscutivelmente dois homens de certezas e marcados pela capacidade de defender suas ideias com o maior afinco possível. Suas concepções e posturas eram, no que tange às suas certezas arraigadas, geralmente inflexíveis. As convicções, presentes tanto no revolucionário como no pastor, se exprimiam na força de suas palavras. Foram dois homens de grande influência no uso da palavra. Um deles domesticava a linguagem como um inflamado orador e líder, e o outro como um profícuo escritor e pregador. Enquanto um discursava nos palanques sobre política, o outro discursava nos púlpitos sobre religião. De todo modo, dois homens de argumentos, teses, discursos, convicções.

Diz-se que um deles entrou para a história dos homens na terra e o outro para a história dos santos no céu. Contudo, e no que tange às duas histórias, não nos cabe dizer muita coisa: cada uma delas possui seus próprios mistérios e desdobramentos improváveis e imprevistos. É no mínimo prudente reconhecer que, assim como os renegados de ontem se tornaram os heróis de hoje, é possível que os perdidos de hoje possam ser os salvos da eternidade. Os critérios humanos são parciais demais para julgar tanto uma história como a outra de forma definitiva. E só para nuançar ainda mais o caso do comunista, basta consultar o belíssimo livro de Frei Betto, Fidel e a religião, onde se pode ler o revolucionário falando ao dominicano: “Estou completamente de acordo com meu nome, pela fidelidade e pela fé, pois uns têm fé religiosa e outros, de tipo diferente. Tenho sido um homem de fé, de confiança, de otimismo”. No limite, dois homens de fé acabam de partir, deixando cada um deles os seus próprios legados históricos de fidelidade.

1. Trata-se de uma versão da Bíblia repleta de comentários feitos pelo próprio Shedd aos textos sagrados. A crítica do também batista José Pedro M. de Almeida rebate a Bíblia Shedd citando três problemas principais: 1) “Não uso a Bíblia Vida Nova de Shedd porque o Texto da Edição Revista e Atualizada é fraco e duvidoso”; 2) “Não uso a Bíblia Vida Nova de Shedd porque as notas de rodapé sobre a criação em Gênesis 1 são heréticas, contendo erros grosseiros”; e 3) “Não uso a Bíblia Vida Nova de Shedd porque notas de rodapé sobre o dilúvio são heréticas e contém erros grosseiros”. Interessante crítica de um fundamentalista a um conservador.

* Delcides Marques é professor de Antropologia na Univasf, membro do KRISIS – Antropologia Crítica, colunista no site PontoCrítico, pesquisador sobre teologia e missão no cristianismo e participante da Igreja Episcopal Carismática do Brasil.