Leitura Crítica

Novembro negro e a consciência negra. Já acabou o racismo?

“Somos jovens –negras e negros – com alto potencial de fala e intelectual, totalmente dispostos a construir e fortalecer as políticas públicas institucionais para nosso povo. Não queremos ser lembrados somente no novembro negro. Nossas consciências negras lidam com o racismo diariamente”. *Por Emanuel Lucas

O Brasil é o país do racismo e da violência racial. Aqui, somos filhos e filhas frutos de estupros desde outrora. As mulheres negras carregam consigo todo o estigma de marginalização. Ela é violentada de todas as formas possíveis.

É impossível falar de racismo e esquecer que os braços que ergueram as estruturas de conforto para uma elite são de homens e mulheres que foram trazidos de África para aqui serem escravizados. Então, não dá mais para ficar na superficialidade de que o racismo começou aqui com a chegada do homem branco europeu e colonizador. Precisamos então resgatar nossas memórias desde então, para que possamos compreender melhor um pouco do que não se conta por aí.

Na escola, na Universidade, nos partidos e organizações sociais, na televisão, no jornal em tudo que é canto passa-se o ano todo sem fazer um debate racial aprofundado. Aqui me coloco enquanto educador negro, que tenho uma agenda pautada para as questões raciais principalmente no que tange à educação, e percebo que pouquíssimas são as pessoas responsáveis por esse trabalho no seu dia-a-dia, e quando o fazem viram cartas marcadas e são taxadas.

Mas basta chegar novembro para a agenda da militância negra dar uma movimentada. São vários os convites para mesa-redonda, rodas de conversas, desfiles, e tantas outras programações. Dito isso, me pego a pensar, ‘só sei falar de racismo?’, ‘só sei discutir sobre o genocídio do povo negro?’, ‘só sei falar de preto e preta?’. Sou grato aos poucos espaços que pude me fazer presente, pois sei que não falei só disso. Eu falei de estrutura, falei de violência, de prática pedagógica, falei de ações, mostrei as ações, apresentei propostas e convidei gente para se somar nas caminhadas.

Hoje já é dezembro de mais um ano e fico me questionando, ‘já acabou o racismo?’.

Os rumos e ações não estão alterando o cenário de violência institucionalizada sob nossos corpos negros, e continuamos sem o mínimo de estrutura possível. Somos jovens – negras e negros – com toda a disposição para contribuir no processo de erradicação da violência racial imposta pelo Estado. Somos jovens que temos formações que não são fomentadas pelas universidades e pela educação básica, mas sim pelas nossas vivências e leituras de mundo. São espaços que em vez de nos unir só fazem aumentar a bolha da meritocracia social.

Somos jovens – negras e negros – que produzimos rap, hip hop, capoeira, poesia, educação descolonizada, que criamos crianças e damos luz às outras, que alteramos a cena cultural e intelectual por onde passamos, que pegamos no bantente se virando, inventando e produzindo para de alguma maneira tentar sobreviver diante de uma sociedade que nos massacra cotidianamente, desde o acordar ao fechar de olhos numa noite de solidão.

Nós jovens – negras e negros – estamos à margem de tudo que é espaço de tomada de poder. Sim, não nego que quero poder. Quero poder pagar cada centavo que o Estado me explora. De moradia à saúde. De educação à alimentação. De transporte, lazer à esporte. Tudo tenho que pagar, então eu quero poder sim. Quero muito poder! ~ eu não nego que gosto de ouro, eu não curto levar desaforo. ~

Esse mês de novembro também foi um mês de perceber quais vozes ecoam respaldo aqui neste país. Enquanto a fala de Taís Araújo sobre ser mulher negra e mãe é interpretada como vitimismo, a fala de uma mulher branca e mãe parece motivo de ‘descoberta’ que crianças negras sofrem racismo. Em Salvador, o prefeito da cidade disponibiliza de ‘agentes da paz’ – a Polícia Militar – para proteger os cidadãos de bem moradores do Porto da Barra e turistas. Se você pegar um busão até o Cabula, se recordará da Chacina em 2015 – comemorada como Gol de Placa pelo atual Governador – e seus olhos revelarão como é o tratamento pelos mesmos agentes nas periferias. Na UNIVASF no campus Juazeiro, dias atrás, estudantes (negros) foram barrados na portaria e questionados sobre sua presença ali. E a minha memória do dia de hoje, é que há um ano eu fui vítima de racismo dentro da minha própria casa, sendo a agressora uma acadêmica intelectual, só mais um caso segue esquecido pelas instâncias públicas.

A internet, mais precisamente as redes sociais, virou palco de ataques violentos e racistas diariamente. Claro que isso é resultado de uma estrutura que perpassa todos os nossos caminhos vida. Desde a educação básica, quando a piada racista que atinge a coleguinha de cabelo crespo, que é chamada de cabelo de bombril, ou o coleguinha que é chamado de macaco, mas o/a professor/a naturaliza como bullying. Quando na universidade tentamos apresentar as vozes dos poucos homens negros que temos, se dificultando mais ainda quando elencamos as mulheres negras intelectuais, mas o que ouvimos de nossos docentes é que nunca ouviram falar de tal bibliografia. Há um epistemicídio que precisamos desconstruir e apresentar as verdades do povo negro através das nossas vozes, e não do que dizem sobre nós.

É fundamental o novembro negro. São fundamentais as ações realizadas durante todo o mês. O que não podemos é limitar nossas consciências negras só e somente nesse mês. Nossas consciências negras precisam ser afirmadas e reafirmadas a todo instante. Espero de verdade, que a minha escrita não seja compreendida como uma crítica que venha a atacar. Pelo contrário, minha crítica vem para somar e para nos fazer refletir sobre o que estamos construindo.

O que estamos construindo?

Um novembro negro como proposta de ação pontual para as pastas do município somente nesse mês, ou um novembro negro como proposta de ação concreta durante todo o ano com o objetivo de fortalecer as identidades negras e negando toda e qualquer forma de imposição da branquitude sobre nossas vidas?

Somos jovens –negras e negros – com alto potencial de fala e intelectual, totalmente dispostos a construir e fortalecer as políticas públicas institucionais para nosso povo. Não queremos ser lembrados somente no novembro negro. Nossas consciências negras lidam com o racismo diariamente. Somos jovens –negras e negros – que sabemos escrever, falar e produzir.

Portanto, acessar nossos conhecimentos somente em uma data específica, também configura racismo. Então, nos convide para a sua Escola, para a sua Universidade, para as marchas, para as mesas redondas, mas também nos convide a trabalhar com vocês. Somos jovens –negras e negros – gays, lésbicas, trans, travestis, bissexuais, afeminadas que também sabemos operacionalizar as ações. O racismo não acabou e não acabará com o novembro negro. Mas podemos sim, juntas e juntos, construirmos ações contínuas para a erradicação da violência racial. Mas para isso precisa ser juntas e juntos. Sociedade civil e poder público. Mas lembre-se que a/o jovem negra/o precisa de estrutura mínima para contribuir frente às demandas institucionais. Precisamos não apenas de reconhecimento em certas épocas do ano. Precisamos de emprego, salário e o mínimo de qualidade de vida possível para continuarmos a nos formar.

Sigamos tocando <<fogo nos racistas!  firma, firma, firma!>>

 

* Emanuel Lucas é Educador Popular e Estudante de História na UPE