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Democracia ou Golpe? O 7 de setembro e a luta contra o autoritarismo

O 7 de setembro de 2021 precisa ser maior que todos os atos que realizamos até agora. Que travemos o bom combate, lado a lado, em defesa da vida, da soberania e da democracia e contra o a fome e o autoritarismo. *Por Patrick Campos

Mais de 583.628 pessoas mortas em decorrência da covid-19. Quase 20 milhões de famintos. 40 milhões de desempregados e desalentados. Metade da população do país em situação de insegurança alimentar. O litro da gasolina custando em média R$ 7,00, o botijão de gás mais de R$ 100,00 e o risco iminente de um apagão elétrico, com o povo pagando a conta com aumento nas tarifas energéticas. Será nessas condições que o Brasil chegará no 7 de setembro de 2021.

É diante desse cenário que a extrema-direita, uma das responsáveis diretas por essa situação, convoca mobilizações golpistas em todo o país. Bolsonaro e seus aliados sabem que nos aproximamos de uma situação limite, quando as condições de vida da maioria do povo pioram brutalmente em decorrência da política negacionista e do programa ultraneoliberal, sendo o autoritarismo o caminho para dar seguimento a essa política entreguista, privatista e de morte.

Como vimos há poucas semanas, na votação da PEC do voto impresso, o Partido Militar (que hoje é uma das principais vigas de sustentação do bolsonarismo) colocou tanques nas ruas de Brasília para dar uma demonstração de força e ameaçar os parlamentares. O objetivo foi parcialmente alcançado, afinal, mesmo derrotada, a PEC teve o apoio da maioria entre aqueles que votaram e catalisou a ânsia golpista dos setores mais extremistas do bolsonarismo, como aqueles que pedem um novo AI-5 e intervenção militar.

Diante das quedas em todas as pesquisas de opinião e da iminência de uma derrota eleitoral, Bolsonaro faz aquilo que a direita tem feito desde 2016: não pagar pra ver. Em 2016, deram o golpe contra a presidenta Dilma, depois prenderam o presidente Lula, tiraram seus direitos políticos, o impediram de concorrer nas eleições de 2018 (quando Lula, assim como agora, também liderava todas as pesquisas), e conjuraram do esgoto o neofascismo bolsonarista.

Enquanto faziam isso, impuseram o programa ultraneoliberal, com a criação do teto de gastos, o congelamento dos investimentos, a privatização de setores estratégicos, o desmonte da previdência social, da legislação trabalhista, do Bolsa Família e um ataque sem precedentes ao meio ambiente, as políticas de cultura e de educação. Não é absurdo afirmar que em cinco anos, a direita fez o Brasil retroceder décadas, tudo isso, entre outros motivos, para não pagar pra ver.

O objetivo é fazer do país aquilo que ele foi no passado, um estado dependente, exportador de matérias primas, controlado pelo latifúndio e o agronegócio, onde a questão social era caso de polícia e em que a classe dominante possuía uma taxa de lucros que a permitia acumular riquezas com o máximo de exploração da classe trabalhadora. Além disso, reforçando por meio da violência, todos os tipos de racismo, o machismo e as estruturas de opressão e dominação que por séculos foram erguidas contra o povo brasileiro, especialmente a população pobre, negra e as mulheres.

Para a direita dar seguimento a esse programa e atingir esses objetivos é cada vez mais necessária uma mudança nas regras do jogo. Por isso, as constantes tentativas de mudar o sistema político e eleitoral, com propostas como semi-presidencialismo e parlamentarismo. No entanto, Bolsonaro e seus aliados já demonstraram mais de uma vez, em diversos ensaios, que não vão pagar pra ver. De tal forma que o 7 de setembro está sendo tratado por eles como uma possibilidade de virar a mesa.

É por isso que toda a mobilização popular neste 7 de setembro, organizada principalmente nos atos do Grito dos Excluídos, precisa ser para enfrentar essa ofensiva que possui um caráter golpista. É a democracia, assim como a vida e as liberdades, que está em risco diante dessa escalada autoritária.

Há diversos setores receosos de enfrentamentos diretos, com a realização de atos simultâneos com aqueles convocados pela direita. Mas não devemos temer. A classe trabalhadora brasileira possui um histórico de luta e mobilização que já foi capaz de derrotar as elites e seus asseclas por mais de uma vez. Se não os enfrentarmos agora, corremos o risco de desacumular num momento que crescemos.

Desde a recuperação dos direitos políticos de Lula, e dos diversos atos nacionais realizados a partir do dia 29 de maio, cada vez mais setores do campo democrático-popular se colocaram em luta, enfrentando o vírus e seus principal aliado que é o governo Bolsonaro.

A direita não pode ocupar as ruas e muito menos achar que nos tiraram delas. O 7 de setembro de 2021 precisa ser maior que todos os atos que realizamos até agora. Que travemos o bom combate, lado a lado, em defesa da vida, da soberania e da democracia e contra o a fome e o autoritarismo.

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores