Coluna K

Silas Malafaia e a política do “irmão nosso de cada dia”

Personagem frequente nos debates públicos de anos recentes, Silas Malafaia exerce uma influência significativa na população brasileira, e não apenas na parcela evangélica. A pergunta que norteia o artigo é: o que Malafaia anda aprontando?

 

Delcides Marques*

Nas últimas décadas, Silas Malafaia foi conquistando espaços de voz e de parceria no âmbito da política brasileira. Ele se tornou amplamente conhecido. Mas, menos pela vivência espiritual implicada na conduta de um líder religioso do que pelas controvérsias e polêmicas que suas declarações promovem. Ser polemista e participar do debate público não são exatamente os problemas efetivos da atuação de Malafaia. Umas das questões é que esse homem muda de opinião como muda de roupa. Mas não apenas isso, a cada mudança encontra argumentos para justificar em nome da fé a nova posição adotada. Cada novo candidato é apresentado aos crentes como a melhor opção. E não apenas isso, seguem-no milhões de fieis que tomam a palavra desse homem como representação da vontade divina. Ele possui quase dois milhões de seguidores no Facebook, trezentos mil inscritos em seu canal no YouTube e 1,3 milhões de seguidores no Twitter. Em relação às eleições, os posicionamentos de Malafaia interferem nas urnas.

Contudo, Malafaia tem agido mais silenciosamente nos últimos meses. Será que isso tem relação com as acusações de lavagem de dinheiro que o envolvem? Será que ele anda refletindo sobre oferta religiosa provinda de corrupção? Será que ele se afastou das polêmicas públicas para rever seus conceitos, critérios e escolhas políticas? Seria bom, mas é de se duvidar.

Em relação à política, ele se apresenta definitivamente como aquele que sabe em quem se deve votar. Iluminado, ele discerne quem são “os bons” e “os maus” políticos. Os bons são aqueles que ele apoia, os maus, já sabemos. Os bons políticos apoiaram o impeachment-golpe sobre a presidenta Dilma. O joio se separa do trigo, assim como a direita deve se afastar dos “esquerdopatas”.

Ele atua, portanto, como uma espécie de pastor-consultor político do mundo evangélico e conservador (ao menos é o que visa a sua atuação pública) que faz e desfaz a imagem de candidatos e de eleitos. Em quem votar? Pergunte ao Malafaia. Cristão vota na esquerda? Malafaia responde. Qual a melhor opção? Eu sei, diz Malafaia.

Mas tem alguma coisa que não bate nessa conta: ele sabe, mas depois titubeia; ele tem convicção, mas depois se arrepende; ele apoia, mas depois nega; ele abençoa, mas depois pede a cabeça; ele defende, mas depois persegue.

Como sabiamente ensinou Jesus, uma árvore deve ser conhecida por seus frutos:

Cuidado com os falsos profetas. Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos. Pode alguém colher uvas de um espinheiro ou figos de ervas daninhas? Semelhantemente, toda árvore boa dá frutos bons, mas a árvore ruim dá frutos ruins. A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons. Toda árvore que não produz bons frutos é cortada e lançada ao fogo. Assim, pelos seus frutos vocês os reconhecerão! (Mateus 7.15-20)

Vejamos alguns frutos de Malafaia.

Em 2002 e 2006, ele havia curiosamente declarado apoio a Lula. Mas será que ele ainda não sabia a postura de Lula, da esquerda e do PT diante de temas como aborto, casamento gay e drogas? Por que Malafaia subiu ao palanque com Lula no segundo turno de 2002? Era Malafaia inocente quanto ao PT? Anos depois, ele diz: “Já acreditei no PT e fiz campanha para Lula em 2002, inclusive aparecendo no programa eleitoral. Quando comecei ver o real objetivos deles, saí fora, qual o problema? Corrigir rotas, reconhecer erros só faz quem é inteligente. O soberbo acha que nunca erra e acerta todas”. Seria bom se ele tivesse mesmo aprendido inteligentemente a corrigir sua rota; mas não.

Quando Temer ainda era vice-presidente, Malafaia foi ao Palácio do Jaburu para o abençoar em nome de Deus e lhe solicitar cuidado com a indicação ao ministério da educação, pois era preciso se precaver diante da “ideologia de gênero” invadindo as escolas. Pouco depois, e logo após o discurso de posse de Temer, lá estava Malafaia novamente, orando e abençoando seu governo. Meses depois, contudo, aparece Malafaia defendendo a renúncia ou o impeachment de Temer. Astuto e ardiloso, ele diz: só quem pediu o impeachment de Dilma pode pedir o de Temer.

A lista parece não ter fim.

Malafaia vibrou com o lugar e a relevância política do deputado Eduardo Cunha, “irmão nosso”, disse ele. E mais, alegou ainda que Eduardo Cunha seria o homem mais inteligente e mais honesto que ele conhecia e que dava dignidade à Câmara. Imaginemos então a conduta dos menos honestos.

Malafaia apresentou Romero Jucá como “um amigo da comunidade evangélica”, como “um homem que defende ideais e princípios cristãos”, como alguém que “tem nosso apoio”. Mais uma vez, como se diz, deu ruim! Esse também recentemente acusado de corrupção e lavagem de dinheiro. Mas como é podre o dedo desse profeta.

Malafaia, nas eleições de São Paulo em 2012, apoiou José Serra contra Fernando Haddad, e tratou a “cartilha gay” de Serra adequada em muitos aspectos em contrate com o “kit gay” de Haddad. Enquanto o primeiro, privilegiaria a família, o segundo estaria propondo uma “apologia ao homossexualismo”. Basta lembrar que, recentemente, Malafaia passou a condenar muito mais acidamente o que chama de “ideologia de gênero” e, agora, até mesmo a defesa que ele fez de Serra não se sustentaria.

Malafaia discordou de certos comportamentos de Jair Bolsonaro, mas disse que “o cara é limpo” e “não tem uma acusação de corrupção contra o cara”. Contudo, depois de paquerar Bolsonaro como candidato à presidência, e criar expectativa de apoio à sua candidatura, Malafaia agora opta por outro nome como candidato para 2018: João Dória, prefeito de São Paulo. Mas por que Dória? Logo mais, veremos o candidato sendo apresentado como homem de Deus e, quem sabe, “irmão nosso”. Assim, e devagar, Malafaia vai se articulando, sem muito alarde, ainda.

Silas está hibernando.. logo mais, e certamente nas próxima eleição, ele estará de volta, apoiando e desapoiando a partir de seu principal critério: a hipocrisia oportunista do momento reduzida ao interesse pessoal em nome da fé. Como se pode ver, Malafaia deixa seus interesses políticos e pessoais sucatearem suas convicções morais, conforme aprouver à situação. Menos radical do que parece, ou que diz, suas escolhas políticas se mascaram num discurso moral, mas apenas quando lhe convém e “em nome da fé”.

* Delcides Marques é professor de Antropologia na Univasf, membro do KRISIS – Laboratório de antropologia, filosofia e política, colunista no site PontoCrítico, pesquisador sobre teologia e missão no cristianismo e participante da Igreja Episcopal Carismática do Brasil.