500 Anos

367 menos 263

O grande vencedor, sem dúvida, deste desastre recente e que pode levar anos para ser revertido atende pelo nome de “Mercado”. Nome de fantasia do velho CAPITAL. O respaldo do campo político está na pior. A economia está na pior. Nossa qualidade de vida piora a olhos vistos. *Por Nilton de Almeida

367 votos de deputados federais ajudaram a levar Michel Temer à presidência da República.

263 votos de deputados federais permitiram a Temer continuar presidente. Por ora.

Por ora, parece tudo como dantes no quartel de Abrantes.

Há que se perguntar ao bloco golpista se valeu a pena. É preciso ir à foto do golpeachment.

Aécio Neves, que articulou o impeachment de Dilma “só para encher o saco”, foi ativo morto-vivo para salvar Temer na votação desta semana para enterrar a denúncia da Procuradoria Geral da República. Tornou-se um novo Cunha, o novo homem do “Centrão”.

Ativo, sim. Morto-vivo, idem. De novo Cunha a futuro Cunha (ora na cadeia), dado outro pedido de prisão da PGR? A ver. Mas mal se sabe se consegue ser eleito para qualquer coisa em Minas Gerais.

Geddel Vieira Lima? Preso. Solto. A diferença é importante. Entretanto, o governo da Bahia – e talvez a carreira política como um todo – é uma miragem.

Os ex-presidentes da Câmara dos Deputados, Henrique Alves e Eduardo Cunha. No momento, presos. Carreiras políticas? Entre encerradas a dinamitadas. A foto do golpeachment é tóxica.

Nesse meio tempo, os paladinos da austeridade tem que explicar os R$ 17 bilhões apenas em emendas parlamentares e verbas destinadas para governos e prefeituras, a fim de salvar Temer (Carta Capital, Uol, Deutsche Welle). Só nos últimos dias.

Se somos chantageados pelo pior Congresso da História desde a Proclamação da República, os cintos seguirão apertados. A negociata vai prosseguir com as já sabidas denúncias contra Temer da PGR a caminho. Neste meio tempo, nossos direitos históricos, o Sistema Único de Saúde, as universidades públicas, o sistema brasileiro de ciência e tecnologia seguem diuturnamente sendo sabotados. Junto com a economia real.

O grande vencedor, sem dúvida, deste desastre recente e que pode levar anos para ser revertido atende pelo nome de “Mercado”. Nome de fantasia do velho CAPITAL. O respaldo do campo político está na pior. A economia está na pior. Nossa qualidade de vida piora a olhos vistos.

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A adoção de dois pesos e duas medidas, quando quase houve dois impeachments em menos de um ano, é ainda mais gritante, ilegítima, ilegal e imoral no caso Rafael Braga.

Para quem não conhece o caso: Rafael Braga é a única pessoa presa em decorrência da onda de protestos no Brasil em 2013. A acusação: porte de artefato explosivo. Os artefatos? Uma garrafa de água sanitária e uma garrafa de Pinho Sol!! Não, vocês não leram errado. Preso, condenado e depois liberado para cumprir prisão domiciliar, foi preso novamente sob a acusação de possuir um rojão, 9,3 gramas de cocaína e 0,6 gramas de maconha. Novamente, vocês não leram errado. Além do próprio Rafael, uma testemunha ocular nega que ele estivesse de posse destes objetos.

A perseguição a Rafael Braga, negro e pobre, é um caso conhecido de centenas de milhares do tacão do racismo institucional no Brasil, ancorado numa conhecida e secular necropolítica anti-negro.

Que mata de uma vez só, aos poucos ou aos muitos momentos de violência física e simbólica. A desproporção fica ainda mais evidente quando parlamentares do naipe de Aécio, Geddel, Loures e quejandos, seguem soltos ou sendo alugados. Precisamos falar sobre Rafael Braga. Precisamos LIBERTAR Rafael Braga.

No mesmo dia em que desembargadores do Rio de Janeiro decidiram por manter Rafael Braga preso, apesar da fragilidade das evidências apresentadas, parlamentares (muitos deles processados na Justiça, vários na mira da Lava-Jato) mercadejavam escancaradamente os bilhões de reais acima citados em emendas parlamentares para barrar a investigação da denúncia contra Temer.

É preciso ter bem marcado o significado da votação: não é para investigar. Ponto. É para ficar tudo como dantes no quartel de Abrantes.

Mas há que ponderar que mais de cem votos evaporaram. Vão insistir na rapinagem do Estado brasileiro e dos direitos dos trabalhadores, tornando à proposta de (anti)reforma da Previdência. Trabalharás, contribuirás, mas não te aposentarás, pois hás de morrer primeiro. Estão por um fio, mas vão propor.

Vão propor, mas estão por um fio. Mais de cem votos evaporaram.

Muitos dos que apoiam, defendem e votam para salvar Temer (segundo historiadores, cientistas políticos e outros analistas) minguarão nas urnas e/ou deixarão de se eleger em 2018.

O impacto sobre os votos de Adalberto Cavalcanti ou sobre Fernando Bezerra Coelho – e a oligarquia (ou clã) dos Coelho – não é mensurável no momento. Mas que haverá ônus é difícil de negar.

“O coqueiro mais alto também cai”, dizem os mais velhos.

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Enquanto isso, tropas das Forças Armadas ocuparam as ruas do Rio de Janeiro. Não, isso não é normal. Nunca foi.

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Há antídotos à vista, porém. Não é tempo de prostrar. Mas de levantar a poeira e dar a volta por cima. Na mesma semana em que o país conheceu, por ocasião de uma fala de Lázaro Ramos na FLIP em Parati, as sábias palavras da professora Diva Guimarães, e na mesma semana em que Angela Davis, uma titã da luta antirracista nos Estados Unidos e na afro-diáspora, esteve na Bahia para socializar sua inteligência e sua experiência, dá para revitalizar a esperança.

“Aonde”, como se diz em Salvador, poderia terminar esta coluna sem “divar”?

Na próxima coluna, vamos divar. Falar da professora Diva Guimarães. De Angela Davis. E de Rafael Braga.

 

*Nilton de Almeida Araújo é professor de História do Brasil, presidente da SindUnivasf (2016-2018), integrante dos Movimentos Antirracistas do Vale e membro do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Juazeiro.