Ciência & Sertão

Só o povo pode salvar a ciência brasileira

‘Se o cientista brasileiro quer, de fato, ser abraçado pela sociedade, tal qual os jogadores da seleção brasileira de futebol, ele precisa falar a língua que o povo fala…’. Por Helinando Pequeno de Oliveira

A ciência e os seus cientistas, sob ameaça, resolveram sair às ruas no dia mundial da terra, no último dia 22 de abril. A ação inédita (idealizada por cientistas norte-americanos) se espalhou por praticamente todos os países do planeta, demonstrando uma capacidade impressionante de articulação. Este momento já poderia ser considerado de extrema importância (mesmo que ninguém saísse às ruas), revelando que cientistas de todo o planeta podem articular conjuntamente ações para a sobrevivência da ciência e do próprio planeta.

O passo seguinte a esta ação requer o engajamento da sociedade, o que preconiza um mínimo de sentimento de pertencimento do povo para com a “sua” ciência.

As paredes frias e insensíveis dos laboratórios precisam abrigar pessoas de sangue quente e pulsante que estejam permanentemente motivadas por divulgar a ciência, eternizando a máxima levantada pelo prêmio Nobel de Química Alan MacDiarmid quando dizia que “Science is people”.

E o povo (que primariamente financia a pesquisa básica em todo o mundo) precisa entender, compreender e se apossar da ciência, ferramenta poderosa quando voltada para as soluções dos problemas do próprio povo.

E a marcha aconteceu por todo o mundo com grande concentração de pessoas nos EUA (como esperado) e de forma mais discreta em outros países, como no Brasil, que conseguiu reunir algumas centenas de pessoas na maioria de suas cidades em um sábado espremido de um feriadão. No Vale do São Francisco cerca de 100 pessoas marcharam pelas ruas do centro de Petrolina.

[Cerca de 100 pessoas marcharam pelas ruas do centro de Petrolina]

E o resultado que se viu nas ruas nos remete à conclusão de que a ciência parece ainda ser algo a ser defendido primariamente pelos cientistas frente aos próprios cientistas. O povo ainda se sente estranho em meio aos jargões e aos termos quase indecifráveis que os cientistas escolheram por compartilhar em sua linguagem “coloquial”.

Se o cientista brasileiro quer, de fato, ser abraçado pela sociedade, tal qual os jogadores da seleção brasileira de futebol, ele precisa falar a língua que o povo fala… Descer do pedestal arrogante das conferências “fofinhas” e da comunidade de pares.  Nossos pares são bem mais que outros cientistas. Eles são o povo, que merece toda a nossa atenção, pois de sua força de trabalho surge todo o financiamento para a atividade científica.

Respeitar nossos fomentadores significa ir à rua e trazer os problemas da rua para dentro do laboratório. Esta pesquisa precisa ser importante para a nação antes mesmo de ser relevante para a revista qualificada e de alto fator de impacto. Os artistas souberam sair às ruas e reverter a extinção do Ministério da Cultura. Já os cientistas viram o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação ser engolido pelo Ministério das Comunicações e permaneceram assim, como podemos dizer, a ver navios da janela de seus laboratórios.

O momento exige uma ciência inclusiva, socialmente referenciada e que coloque a brasileira e o brasileiro no foco das ações, com o intuito de ser uma poderosa ferramenta de soberania nacional. A marcha pela ciência no Brasil foi um momento de despertar para a comunidade acadêmica e deve ser tratado como um ponto de partida para uma parceria infalível com o povo: tudo começa pelo retorno dos cientistas para a rua. A ciência no Brasil corre risco de extinção. É hora de se jogar ao chão e cobrir o corpo de cinzas, ter humildade de ouvir e ser inclusivo. Só o povo pode salvar a ciência brasileira. E os cientistas, que do povo vieram, precisam voltar a ser povo, outra vez.