Cosmopolita

Sobre como se recuperar de uma ressaca

‘Ressaca braba de tantas coisas ruins que aconteceram este ano’. Por Edianne Nobre

Por Edianne Nobre*

Um dia, quando olhares para trás,
verás que os dias mais belos
foram aqueles em que lutaste.
– Sigmund Freud

Muitos amigos me perguntaram porque deixei de escrever neste espaço, e agora, antes que o ano acabe, e eu me arrependa de não ter respondido a essa pergunta, te digo, my friend: eu estava de ressaca. Ressaca braba de tantas coisas ruins que aconteceram este ano; ressaca de ver nossa democracia tão frágil e descuidada ser vilipendiada sem remorso; ressaca de ver uma presidenta eleita legitimamente ser deposta por essa gente careta e covarde que sabe, no entanto, que <<ela tem uma bravura pessoal que é uma coisa inacreditável>>; ressaca de ver essa piscina cheia de ratos, essas ideias que não correspondem aos fatos.

Desativei whatsapp, facebook e quase desativo a vida. Depressão, pulsão de morte, dirão os psicólogos. Eu digo novamente: uma ressaca. Do meu coração partido, <<quando ele foi embora, eu chorei por uma semana>>; de tanta falsidade: falsos amigos, falsos amores, das esperanças quebradas, da solidão, da fé que eu perdi. Tudo doía no meu corpo anestesiado. Um desses paradoxos inexplicáveis da vida.

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[So cliché – Bansky]

Aí um dia eu viajei. Decidi pegar a estrada e me afastar de tudo isso. Conheci uma nova cidade e um rio que corre ao contrário, vi uma Super Lua do alto de uma montanha, reencontrei um amigo importante que me ensinou a perdoar, amei um poeta, recuperei a confiança em mim mesma. O remédio talvez seja esse: partir. Às vezes, é preciso ir e olhar tudo de longe. <<A vida só confisca o que sobra sem proveito>>, diria Damário Dacruz.

Voltei a escrever. Mergulhei lentamente no reino das palavras e elas me disseram que é cliché desejar que um ano acabe, esperando que o próximo seja diferente. <<Quem sabe faz a hora, não espera acontecer>>.

Então, tomei um Engov e aqui estou, enfrentando o papel em branco. Everything is temporary e a vida é muito frágil. <<Vamos viver tudo que há pra viver, vamos nos permitir>>. Outros clichés, eu sei, mas mais vale um cliché no presente do que dois no futuro incerto. Novamente, encaro de frente essa roda viva, encaro de frente a vida, e, se 2017 não for diferente, ao menos, eu serei.

 

 

*Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.