Contos e Crônicas

Bem-vinda Maria

Maria não era popular, pelo contrário, era de poucas amizades. Curtia Jorge Ben Jor e Rita Lee, assistia a todos os filmes de Pedro Almodóvar, mas não conseguia deixar de amar o universo fantasioso de Tim Burton.
Por Letícia Figueiredo

– O que você está sentindo?

– O que você está pensando?

Maria tinha vontade de responder a todas essas perguntas que lhe eram feitas diariamente, mas não conseguia.

– O que está acontecendo?

– O que está fazendo?

Mais uma vez, Maria queria responder. Até respondeu, mas ficou para si mesma.

Foi questionada por não responder. Novamente, não se pronunciou.

Maria acabou de completar vinte anos de idade. Ingressou na Universidade, mas não sabem o curso. Maria não quis responder.

É a filha mais velha, seu irmão, o João, tem dez anos. Ajuda sua mãe nas horas livres no pequeno negócio da família. É daí que tiram o sustento para a casa e mais dois cachorros e um gato.

-Seus animais têm nome?

Maria não quis responder. Maria quase não existia. Não respondia nem opinava, ao contrário de sua mãe, que fazia questão de existir. Foi através dela, que descobriram a existência dos dois cachorros, o Bob e o Marley e o gato Bill.

Maria não era popular, pelo contrário, era de poucas amizades. Curtia Jorge Ben Jor e Rita Lee, assistia a todos os filmes de Pedro Almodóvar, mas não conseguia deixar de amar o universo fantasioso de Tim Burton. Notava-se apenas por olhar. Sonhava em ser sua Alice no País das Maravilhas, mas achavam isso irrelevante.

Será que era por isso que Maria não respondia?

Agora, Maria não precisa mais responder.

Quem perguntava já não pergunta mais, já devem tê-la esquecido.

Aos vinte anos, Maria sucumbiu ao desejo da libertação virtual.

Bem-vinda de volta à vida, Maria.