Cosmopolita

Faz calor e a culpa não é do Sol

‘Faz calor e mesmo assim, cortamos todas as árvores para evitar que as folhas caiam e sujem o chão.’. Por Edianne Nobre

Por Edianne Nobre*

Não somos melhores do que o universo,
somos parte dele.

Neil deGrasse Tyson

Faz calor. Faz calor e ninguém sabe por quê. Ninguém sabe? Faz calor e mesmo assim, cortamos todas as árvores para evitar que as folhas caiam e sujem o chão.

Faz calor e gastamos fortunas em máquinas de ar condicionado que aliviam a temperatura, mas utilizam hidroclorofluorcarbono, uma substância que abre ainda mais o buraco na camada de ozônio, a mesma que deveria (mas não pode mais) nos proteger dos raios impiedosos do Sol.

Aliás, faz calor e as pessoas colocam a culpa no Sol.

Faz calor e compramos mais e mais protetores solares de marcas apelativas que mostram mulheres seminuas e crianças brancas como o leite.

Faz calor e espalham-se outdoors pela cidade: cremes e batons para cuidar da pele, feitos com petróleo, que detonam ainda mais os recursos naturais, inclusive, algumas marcas ainda usam animais nos testes de qualidade.

Faz calor e bebemos água mineral comprada em um camelô por 2,50 e jogamos a garrafa em uma lixeira qualquer (quando jogamos na lixeira) e aquele plástico vai demorar não sei quantos mil anos** para se decompor porque na minha cidade (em quase nenhuma cidade no Brasil) não existe coleta seletiva regular ou programas de reciclagem (se existe, eu não conheço, me apresentem, por favor).

Faz calor e gastamos milhares de copinhos, pratos, talheres e guardanapos descartáveis porque não é chic andar com marmita por aí. Deixamos para lá porque, provavelmente, nos decomponhamos antes destes descartáveis. Afinal, nós que aqui estamos pelas próximas gerações esperamos. O problema sempre é das próximas gerações. Esquecemos que elas serão feitas por nossos filhos e netos.

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[Orla de Petrolina, Foto de Gilmar Santos]

Faz calor e mesmo assim jogamos lixo no rio, água doce que poderia servir de alívio, mas não serve porque o rio está sujo e morrendo, nós o matamos todo dia mais um pouquinho e sem os recursos naturais, produzimos mais calor e com o calor, mais reclamações.

Faz calor: eu entro no meu carro, ligo o ar condicionado e reclamo. Reclamo de não poder andar a pé na orla durante o dia por causa da alta temperatura e aqui estou eu, debaixo de uma tonelada de creme (que quase sempre esqueço de colocar) porque tenho a pele clara e me enchi de brotoejas no último verão.

Eu reclamo porque posso reclamar. Eu não trabalho na roça. Eu não moro na rua. Eu tenho água limpa na minha casa para beber e para tomar banho por “módicos” sessenta reais ao mês que pago à companhia de água. Ironicamente, no Brasil, a maioria das empresas de fornecimento de água joga o esgoto no rio ou você acha que o Tietê sempre foi sujo? Então, me dou conta que assim, sou eu que jogo o esgoto no rio. Eu, você, todos nós. Do conforto de nossas casas e sem nenhum esforço, poluímos o rio.

Penso um tempo sobre isso, mas logo lembro com orgulho que sou uma cidadã modelo que paga os impostos e cumpre as leis. Então, faz calor e eu volto a reclamar.

O problema é: quando pararemos para pensar naqueles que não podem? Quando iremos ouvir as vozes do morador de rua, do camponês, das plantas, dos animais e do Velho Chico?

 

* Edianne Nobre é contadora de histórias, leonina e filha de Oya. Já morou em algumas cidades do mundo e agora vive em Petrolina. Antes de morrer quer viajar muito mais, saltar de paraquedas e dançar um tango em público.

** Estima-se que copos descartáveis levem até 200 anos para se decompor, enquanto as garrafas plásticas não possuem estimativa, pois dependem do tipo de plástico utilizado na composição. Segundo a engenheira química Marilda KeicoTaciro, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), o plástico é um elemento novo, criado em 1862 por Alexander Parkes, assim, a natureza ainda não está preparada para decompô-lo: “”Bactérias e fungos que decompõem os materiais não tiveram tempo de desenvolver enzimas para degradar a substância”. Fonte: http://mundoestranho.abril.com.br/materia/por-que-o-plastico-demora-tanto-tempo-para-desaparecer-na-natureza