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“Aha uhu o Fachin é nosso”, escreveu Dallagnol em grupo de procuradores da Lava Jato

Novas revelações mostram que Moro atuou como chefe da Lava Jato; ‘Palavra por palavra, às comunicações examinadas pela equipe são verdadeiras’, escreve reportagem da Veja

Ex-juiz Sérgio Moro e procurador que coordena Lava Jato, Deltan Dallagnol atuavam juntos, mostram mensagens reveladas pelo The Intercept Brasil. Foto: José Cruz/Agência Brasil

O atual ministro da Justiça, Sergio Moro, pediu para que a acusação, representada pelo Ministério Público Federal em Curitiba, incluísse provas nos processos da operação Lava Jato, antes de chegarem em suas mãos, quando juiz responsável por julgar os processos. A revelação é matéria de capa da revista Veja, em parceria com The Intercept Brasil.

O site de notícias recebeu de uma fonte anônima quase 1 milhão de mensagens, totalizando 30.000 páginas. A Veja diz que, para a reportagem, analisou 649.551 mensagens. “Palavra por palavra, às comunicações examinadas pela equipe são verdadeiras e a apuração mostra que o caso é ainda mais grave”, escrevem os jornalistas que assinam a matéria.

“Moro cometeu, sim, irregularidades. Fora dos autos (e dentro do Telegram), o atual ministro pediu à acusação que incluísse provas nos processos que chegariam depois às suas mãos, mandou acelerar ou retardar operações e fez pressão para que determinadas delações não andassem”, completam.

A reportagem também conseguiu comprovar a veracidade de um dos trechos dos diálogos que menciona o apresentador da TV Globo, Fausto Silva. Em uma conversar entre Moro e o coordenador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol, no dia 7 de maio de 2016, o então juiz comenta com o procurador que havia sido procurado pelo apresentador:

“Ele disse que vcs nas entrevistas ou nas coletivas precisam usar uma linguagem mais simples. para todo mundo entender. Para o povão. Disse que transmitiu o recado. conselho de quem está a (sic) 28/anos na TV. Pensem Nisso”, escreveu Moro pelo Telegram.

A Veja diz que procurou Fausto Silva e o apresentador confirmou o encontro e o teor da conversa entre ele e Moro.

A matéria aponta, principalmente, que Moro se comportou como chefe do Ministério Público Federal, ferindo o princípio de neutralidade exigido de um magistrado, postura que pode anular sentenças.

A reportagem destaca trechos de conversas onde Moro atuou com o papel duplo de juiz e assistente de acusação nos casos do pecuarista e amigo de Lula, José Carlos Bumlai, do ex-deputado Eduardo Cunha, do almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva (ex-diretor da Eletronuclear), do ex-governador do Rio, Sérgio Cabral, e do próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em 17 de dezembro de 2015, em uma conversa onde Moro informava que era preciso uma manifestação do MPF no pedido de revogação de prisão preventiva de Bumlai, “até amanhã meio dia”, Dallagnol respondeu que a ação seria feita, acrescentando: “Seguem algumas decisões boas para mencionar quando precisar prender alguém…”. Em outras palavras, o procurador deu dicas de argumentos para garantir a prisão.

O pecuarista foi preso em 24 de novembro e denunciado em 14 de dezembro. Essa última data estava a uma semana do recesso da Justiça Federal do Paraná. A reportagem da Veja/Intercept mostra que Moro atuou também interferindo na agenda dos procuradores da força-tarefa.

Em uma conversa em 13 de outubro de 2015, o procurador Paulo Galvão alertou o colega Roberson Pozzobon sobre a atuação do juiz: “Estava lembrando aqui que uma operação tem que sair no máximo até por volta de 13/11, em razão do recesso e do pedido do russo (Moro) para que a denúncia não saia na última semana. Após isso, vai ficar muito apertado para denunciar.”

A resposta de Galvão foi: “uma grande operação por volta desta data seria o ideal. Ainda é próximo da proclamação da república. rsrs”.

Meses antes, em 7 de junho de 2015, um procurador da força-tarefa, identificado pela reportagem como sendo Carlos Fernando dos Santos Lima, escreveu: “Igor. O Russo (Moro) sugeriu a operação do professor para a semana do dia 20.”

Igor Romário de Paula é o delegado da Polícia Federal, também membro da força-tarefa da Lava Jato. Ele respondeu: “Opa… beleza… Vou começar a me organizar”

Na apuração da revista, o “professor” é o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, da Eletronuclear. O militar foi preso no dia 28 daquele mês. Ele foi acusado e condenado por receber pagamento de propinas da Andrade Gutierrez, durante a construção da usina Angra 3. O caso resultou no desdobramento de outra operação, chamada de Radioatividade e que levou à prisão Flávio David Barra, ex-presidente da AG Energia, do grupo Andrade Gutierrez.

A reportagem Veja/Intercept mostra que, em uma das ações de Moro para manter os casos da Lava Jato em seu poder em Curitiba, o magistrado omitiu para o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), que havia indícios do envolvimento de parlamentares para evitar que o caso fosse retirado de Curitiba e remetido para a Corte.

Mensagens trocadas entre os membros da força-tarefa, mostram que Moro sabia que o MPF tinha recebido uma planilha da defesa de Barra descrevendo o pagamento a diversos políticos, semanas antes de o juiz ter sido perguntado pelo ministro Zavascki se não sabia do possível envolvimento de parlamentares com foro privilegiado no caso, o que obrigaria o envio do processo para a análise do STF.

Zavascki soube do envolvimento de parlamentares pela própria defesa de Barra, que pediu ao ministro a suspensão do processo tocado pela 13ª Vara de Curitiba, alegando que Moro não tinha competência para julgar o caso.

“Diante da reclamação, Zavascki cobra explicações de Moro, que diz não saber nada sobre o envolvimento de parlamentares”. Entretanto, 18 dias antes, uma conversa com o procurador Athayde Ribeiro Costa, a delegada Erika Marena, da Polícia Federal, contou que foi orientada por “russo” (Moro) para protocolar a planilha da defesa de Barra sobre o pagamento a políticos sem pressa.

Já no dia 14 de dezembro de 2016, Dallagnol manda uma mensagem para Moro dizendo que em breve iria protocolar uma denúncia contra Lula e que a de Sérgio Cabral seria registrada no dia seguinte. “O que de fato ocorreu”, pontua a reportagem.

Sobre Eduardo Cunha, no dia 12 de junho de 2017, o procurador da Lava-Jato, Ronaldo Queiroz criou um grupo no Telegram com Dallagnol. A proposta era para avisar que foi procurado pelo advogado do ex-deputado, para uma negociação de delação premiada.

No dia 5 de julho, os procuradores finalmente concordaram em marcar uma reunião com o advogado do parlamentar, Délio Lins e Silva Júnior, para o dia 11 de julho. Nesse mesmo dia, 5 de julho, Moro mandou uma mensagem para Dallagnol, sobre os rumores de uma delação de Cunha. “Espero que não procedam”, disse.

Após algumas explicações de Dallagnol dizendo que o encontro estava programada só para os procuradores tomarem conhecimento dos anexos da defesa de Cunha, Moro completou, sem antes saber do conteúdo: “Agradeço se me manter (sic) informado. Sou contra, como sabe.”

Outra revelação feita por Veja/Intercept é o indício de parceria com o ministro do STF, Edson Fachin. Em de julho de 2015, a reportagem diz que Dallagnol mandou uma mensagem aos colegas da Lava jato “exultante” após um encontro com o magistrado: “Caros, conversei 45 m com o Fachin. Aha uhu o Fachin é nosso.”

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