Cosmopolita

Gypsy ou a terapia como descoberta da cigana que mora em mim

Estar fora de si é, na verdade, olhar para o âmago e permitir aflorar tudo o que a sociedade reprime. Por Edianne Nobre*

So I’m back to the velvet underground
Back to the floor that I love
To a room with some lace and paper flowers
Back to the gypsy that I was to the gypsy that I was.

Fleetwood Mac, 1982.

Semana passada estreou uma nova série na Netflix: GYPSY.

A sinopse, como sempre, é tão malfeita que não dá conta do que a série trata, ao menos, na minha interpretação. Estrelada pela maravilhosa-deusa-diva Naomi Watts (vejam Mulholland Drive, David Lynch, 2001), o roteiro traz uma terapeuta, Jean, que se envolve intimamente nas histórias de seus pacientes através de um alter ego: Diane. Estas duas personas (do grego, máscara) funcionam, alternadamente, no sentido de ajudar a protagonista a lidar com a sua vida pessoal e com a vida de seus pacientes. Não pretendo aqui esmiuçar a história, então no spoilers.

Meu interesse hoje é refletir mais sobre a terapia como forma de conhecer as personas que carregamos dentro de nós. Algo que já me inquieta há algum tempo e que não tinha tido oportunidade de falar sobre. Queria começar com algumas premissas: 1. Uma pessoa cosmopolita é alguém <que faz muitas viagens, adaptando-se rapidamente ao modo de vida dos locais onde passa>. 2. Gypsy, por sua vez, é a palavra inglesa para cigano ou <para significar uma pessoa que não gosta de morar no mesmo lugar durante muito tempo, como os ciganos nômades>. Todo cosmopolita é Gypsy. Todo Gypsy é um viajante.

Para o filósofo Jean-Luc Nancy, o viajante sempre leva o sentimento de intrusão dentro de si. O medo constante de não se adaptar, de ser expulso ou rechaçado na sociedade em que busca se inserir. Ser aceito significa também ser assimilado e ser assimilado é não ser visto, é tornar-se comum. Assim, toda a discussão sobre a aceitação das diferenças leva justamente à eliminação das diferenças. O sonho de todo viajante-cosmopolita-gypsy (não falo de turistas) é ser aceito, passar como alguém do lugar, respirar o mesmo ar, comer a mesma comida, ter as mesmas sensações do nativo. É usar a máscara do outro.

A terapia, tem sido para mim, uma forma de imersão em um mundo completamente desconhecido, um mundo estranho como o <através do espelho> de Alice. Todos nós carregamos mais sombras, fantasmas, medos e desejos do que podemos supor. Como historiadora, a linguagem tem muita importância para mim. Mas, por vezes, me deparo com experiências que não podem ser narradas. Por exemplo, como falar das experiências que você não consegue lembrar? Ou como falar de experiências extremamente dolorosas para serem recordadas? Como contar sonhos que se evanescem ao acordar? Isso me leva também a outras questões: Como lidar com situações que fogem do seu papel social? Quem nunca quis ser outra pessoa, alguém diferente? Mais seguro de si, mais decidido, mais sexy?

Quem você é quando ninguém está olhando? / Imagem promocional Netflix.

Nos deparamos com dois reinos bem distintos, mas bem próximos: de um lado, Mnemósine, a Memória, que carrega consigo o véu da lembrança e a capa do esquecimento; de outro, o domínio de Clio, musa da História, sempre uma narrativa produzida que se pretende coerente, que é sempre intencional e, muitas vezes, é também, um discurso de poder.

Voltando à série. Para mim, Jean e Diane, representam a História e a Memória, a primeira, sob controle, que eu desejo contar; a segunda, uma cigana, aquela que sou no meu íntimo. A primeira, que cria uma imagem social-aceitável de si. A segunda, viajante estrangeira composta de sonhos, desejos, vontades que não ouso manifestar, a não ser, em estado de persona, isto é, quando não sou o sujeito histórico e social que devo ser, quando não estou seguindo as regras do jogo e obedecendo as convenções sociais.

Quando estou <fora de mim>.

A própria expressão é bem curiosa. Estar fora de si é, na verdade, olhar para o âmago e permitir aflorar tudo o que a sociedade reprime. <No próximo milênio seremos todos insanos>, dizia Harper no filme Angels in America. Vivemos em um estado de eterna confusão mental proporcionado pelo excesso de promessas da modernidade, pelo apelo comercial, pelas propagandas de felicidade, pela sedução do corpo fitness, do amor perfeito e modelos de beleza e status que nos são vendidos diariamente. Rivotril Society. <Acabei de tomar meu Diempax, Meu Valium 10 e outras pílulas mais. Duas horas da manhã recebo nos peito um Triptanol 25. E vou dormir quase em paz>. Anormal é não tomar. Somos uma sociedade de viciados: em café, açúcar, pílulas, tecnologia e sexo.

Nos preocupamos tanto em contar a História que os outros querem ouvir, que nos esquecemos da nossa cigana interna, aquela que quer ser livre e aventurar-se. A destemida, a amoral, a impulsiva. Este tempo que vivemos nos afasta de nós mesmos. A terapia é uma forma de contato com a parte mais obscura de nossos pensamentos. Talvez, a chave cognitiva para entendermos nossas ações no cotidiano, para acessar o porão do inconsciente, metáfora freudiana.

O problema é que mergulhar no mundo do inconsciente é assustador demais. Fácil é manter tudo na superficialidade. Aceitar que somos mais que um, aceitar que carregamos outras personas dentro de nós, pode ajudar a viver nesse mundo louco?! Quantas de mim eu carrego como uma boneca russa em loop infinito?

E talvez, a pergunta mais importante, eu sou capaz de me aceitar como sou?

 

 

 

*Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.