Leitura Crítica

Miguel explica o racismo escravagista da elite de Recife

“Talvez se esse animal [cachorro da patroa] tivesse caído do nono andar, muitas pessoas ficariam mais indignadas e ainda colocariam a culpa na doméstica.”

Miguel Otávio Santana da Silva voou do nono andar de um prédio de luxo no centro do Recife para um lugar reservado a anjos negros que saíram desse mundo pela omissão e descaso daqueles que deveriam protegê-los quando ainda estavam nesse mundo. O pequeno se encontrou com Ághatas e Joãos Pedros nesse canto. Se corpo foi de encontro ao mais amaldiçoado pedaço de chão da capital pernambucana.

Oficialmente, os dois edifícios de 41 andares se chamam Pier Maurício de Nassar e Pier Duarte, mas qualquer transeunte que passe pelas imediações do Cais de Santa Rita só se refere ao monstrengo de concreto como Torres Gêmeas. A construção do par de prédios se deu envolta a polêmicas urbanísticas e ambientais. O resultado é uma aberração arquitetônica no meio de umas das paisagens mais bonitas da cidade.

Projetado para ter como habitantes a alta classe recifense, o condomínio e seus moradores já foram destaque nos noticiários por diversos motivos. Seja por aqueles que jogaram dinheiro pelas suas janelas, tentando livrar o flagrante durante o uma operação da Polícia Federal, sejam as dezenas de trabalhadores chineses que se empilhavam dentro dos apartamentos de luxo.

A família que empregava a mãe de Miguel é um claro exemplo da aristocracia pernambucana desde que o estado era a capitania hereditária que dava mais lucro ao erário português. O marido é de uma família que domina a política dos municípios do Litoral Sul de Pernambuco, além de ter o nome envolvido em práticas ilegais, segundo a Carta Magna.

A elite local permanece com práticas escravocratas, como pôr em risco a vida da sua empregada obrigando-a a trabalhar mesmo em tempos de pandemia. Mirtes Renata Santana da Silva não teve direito a quarentena. Entre seus atributos no serviço estava passear com o cachorro da família. Talvez se esse animal tivesse caído do nono andar, muitas pessoas ficariam mais indignadas e ainda colocariam a culpa na doméstica.

Mas quem morreu foi um menino preto. Preto como as imagens que pipocaram nas redes sociais com a legenda de que vidas negras importam. Importam mesmo? Talvez até importem, mas menos do que fazer parte de uma tendência. No momento dizer-se antirracista é imprescindível, menos pela causa e mais pelo julgamento dos seus pares. “Como assim você não colocou #BlackLivesMatter nos seu Instagram?”

Se realmente a sua vontade é de se revoltar contra aqueles que menosprezam as vidas pretas, sugiro que se comece fazendo campanha contra Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares. O sujeito que mais envergonha os negros brasileiros. O racismo bate à porta todos os dias. Porta de Bancos, porta de elevadores. De Minneapolis ao Recife. Preto é a cor que está no centro do alvo, seja da polícia ou daqueles que se recusam a limpar a sua própria sujeira. Parte deles terá muito trabalho para tirar o sangue de suas mãos.

Gil Luiz Mendes é escritor e jornalista. Apresenta o podcast Baião de 2 na webrádio Central3.

Fonte: Correio da Cidadania