Ciência & Sertão

Doutores que formam doutores

‘Ver jovens de graduação ansiosos por publicação é fomentar o fortalecimento de uma geração que faz ciência para lançar atualizações no curriculum Lattes e não propriamente pelo que a ciência representa.’ Por Helinando P. de Oliveira*

Há um incômodo visível (em especial entre doutorandos) pelo uso inadequado da palavra “Doutor”, título acadêmico normalmente confundido com pronome de tratamento desde os tempos do Brasil colônia. Dizem eles: “Doutor é quem tem doutorado”.

imagem da internet

Em particular, os grandes doutores da ciência não fazem questão em usar o título antecedendo seu nome. Por outro lado, o pronome de tratamento funciona para alguns como uma honraria, distinção – se alguém deseja e é feliz pelo fato de ser tratado como doutor ou doutora, que o seja! Simples assim.

Nesta matéria quero tratar de doutores que usam seus títulos como um meio para formar mais doutores e que fizeram o Brasil atingir a incrível marca de 13000 doutoramentos por ano.

é fundamental que o orientador goste de gente

O processo de formação dos doutores é longo e extremamente delicado, dependendo excessivamente da relação estabelecida entre orientador e orientando, que por vezes migra facilmente do convencional profissionalismo à relação entre pais e filhos.

Com isso, é fundamental que o orientador goste de gente (parece óbvio, mas encontrar gente que goste de gente no meio acadêmico não é tão simples assim). E assumir que a orientação pode e deve ser uma paternidade/maternidade acadêmica torna o processo ainda mais sério.

O primeiro passo para o êxito na formação de doutores começa com a consolidação de um bom programa de iniciação científica (IC). Seja qual for a dimensão de um grupo de pesquisa, é fundamental ter uma proporção bem definida de estudantes de IC, que oxigenam e renovam a equipe de trabalho. E embora a hierarquização seja inevitável, o contato direto entre orientador e os jovens de IC é altamente necessário. E neste contato a cobrança precisa ser amenizada. A atividade de iniciação é, antes de mais nada, a conquista da inspiração pela ciência. Colocar sobre os ombros de jovens (que se aventuram pela primeira vez na ciência) a cobrança por índices de produção é uma forma perversa de apagar o brilho nos olhos de quem deseja buscar conhecimento. Portanto, a lógica produtivista deve passar longe dos estudantes do IC. Ver jovens de graduação ansiosos por publicação é fomentar o fortalecimento de uma geração que faz ciência para lançar atualizações no curriculum Lattes e não propriamente pelo que a ciência representa. Portanto, nível de formação requer níveis distintos de cobrança. Muitos dos estudantes de IC não seguirão a carreira acadêmica. E isto não significa que o orientador falhou em sua missão: profissionais no mercado de trabalho com domínio do método científico tendem a ter muito mais sucesso.

Aos egressos do programa de IC que buscam a continuidade de formação acadêmica há uma clara vantagem medida nos tempos de conclusão do mestrado e de índices de publicação. A capacitação em nível de IC inegavelmente amadurece os estudantes e possibilita com que sua chegada à segunda etapa de formação seja melhor aproveitada. O mestrado pode ser visto como o momento ideal para que o orientador apresente aos seus estudantes os primeiros espinhos que a academia reserva – prazos e métricas. O Brasil desenvolveu um dos mais completos programas de avaliação da pós-graduação no mundo e a CAPES estabelece claramente todas os parâmetros necessários para a sobrevivência e fortalecimento de programas de pós-graduação. É neste momento que a cartilha deve chegar aos estudantes, que precisam ser parte integrante de seus programas de pós-graduação. Esta é a criação do sentimento de pertencimento do pós-graduando com sua instituição. E o intervalo de dois anos para a conclusão do mestrado é extremamente didático: ele funciona como um enorme alerta para todos estabelecendo que os prazos na academia foram feitos para serem cumpridos.

Terminado o mestrado, como esperado, uma parcela daqueles que concluíram podem escolher não continuar nesta caminhada. Afinal, neste ponto, todos estão devidamente esclarecidos sobre os que os espera no doutorado.

E o doutorado reserva uma primeira grande armadilha: o aparente longo prazo para conclusão. Alucinados com os prazos curtos do mestrado, os doutorandos podem entender que quatro anos são uma eternidade e assim perderem meses preciosos em sua capacitação.

No entanto, este é o período em que além do trabalho científico restam as últimas oportunidades para que as lacunas que restam sejam devidamente sanadas: é este o momento em que o doutorando precisa dominar a língua estrangeira, escrever projetos e artigos, participar de congressos internacionais, ser visto e fazer contatos, ter ideias… construir a sua independência.

Em certas condições o orientador deixa de estimular esta liberdade para o doutorando, amarrando-o a uma dependência que vai muito além da defesa de doutorado.

E quando chega enfim a defesa de doutorado, se tem a quebra de um cordão umbilical acadêmico. Todo o investimento que foi feito durante a graduação, mestrado e doutorado precisa ser suficientemente forte para que o então novo doutor saia e construa uma nova estrutura. É evidente que haverá dependência com o antigo orientador por algum tempo, mas não o suficiente para justificar a falta de ideias, de projetos, de orientações independentes. O novo doutor precisa iniciar suas orientações de iniciação científica, em seguida de mestrado e de doutorado. Ao mesmo tempo em que precisa consolidar sua carreira, publicando e estabelecendo parcerias. E não mais que de repente aquele jovem estudante de IC que agora é doutor forma outros doutores, que em breve formarão outros doutores. Seus nomes? Não importa! Eles são ombros sobre os quais outros subirão e oferecerão seus ombros para que outros subam e a ciência continue avançando.

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.