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Já é novembro…nenhum quilombo a menos!

“Por menos que conte a história. Não te esqueço meu povo. Se Palmares não vive mais. Faremos Palmares de novo…” José Carlos Limeira

(Para Abdias Nascimento e Lélia Gonzales)

Memórias I

 Queria ver você negro

Negro queria te ver

Se Palmares ainda vivesse

Em Palmares queria viver.

(José Carlos Limeira)

De acordo com Florentina Souza, a preocupação com a história, a memória e a atuação dxs negrxs na condição de sujeitxs é uma constante na produção poética de Limeira, retomando a história para reconfigurá-la. Para a pesquisadora, em diversos textos poéticos do autor “(…) a participação do afro-brasileiro na construção do país é enfatizada e são expressos desejos de reconfigurar/recontar as histórias de modo a destacar as lutas, as glórias e tradições dos africanos na diáspora brasileira.” (2011, p. 33). De forma similar, o poema “Zumbi” também evidencia esse desejo de “reconfigurar/recontar” a história através não só da afirmação da figura de uma das lideranças de Palmares, mas também da simbologia do 20 de novembro:

ZUMBI

As palavras estão como cercas
em nossos braços
Precisamos delas.
Não de ouro,
mas da Noite
do silêncio no grito
em mão feito lança
na voz feito barco
no barco feito nós
no nós feito eu.
No feto

Sim,

20 de novembro
é uma canção
guerreira.

(Abelardo Rodrigues)

20 de novembro, data escolhida como Dia Nacional da Consciência Negra, surgiu também como uma forma de não referendar o 13 de maio. Já que a comunidade negra não se sentia representada pela data da suposta Abolição da Escravatura, era importante a escolha de uma data a ser celebrada e neste caso foi o dia 20 de novembro. Se no 13 de maio a personagem que recebe o papel de heroína é a Princesa Isabel, no 20 de novembro quem assume esse lugar é Zumbi, já que este foi o dia de sua morte. Mas obviamente o que foi escolhido para ser lembrado foi a sua luta contra escravidão na condição de líder do Quilombo dos Palmares. Assim a referência da escravidão é substituída pela da liberdade, a da liberdade concedida pela liberdade conquistada, a passividade pela luta e resistência.

Para Eduardo de Assis Duarte e Luiz Henrique Oliveira, a obra de Abelardo Rodrigues representa um “(…) desejo de um futuro melhor, o qual depende da ressignificação do passado, por meio da linguagem (…)” (2011, p. 128).   Referendar a celebração de outras datas que são simbólicas para os afro-brasileiros é instaurar uma simbologia que possibilita um recomeço para um futuro melhor através de uma ressignificação do passado que propaga, através da linguagem, o compromisso de divulgar outras notícias.

Entretanto, este ano iniciamos o novembro negro com a urgência de divulgar tristes notícias de constantes violências à diversas comunidades quilombolas incluindo o recente assassinato de Flávio Gabriel Pacífico (Binho), uma das lideranças do Quilombo Pitanga dos Palmares, situado em Simões Filho, e nova ofensiva da base Naval, no  dia 24 de outubro, contra o Quilombo Rio dos Macacos, situado em Salvador. Já é novembro e precisamos reforçar a luta por “Nenhum Quilombo a menos”. Retomando os versos de Limeira, Palmares não está morto, buscamos incessantemente retomá-lo. Essa retomada não seria necessariamente um retorno, mas uma reinvenção. A convicção de possibilidades de reconstrução/reinvenção, de aquilombamento, faz encher ainda mais a simbologia do mês de novembro na medida em que tomamos em nossas mãos a escrita das nossas histórias. Afinal, como escreveu Limeira: “Por menos que conte a história. Não te esqueço meu povo. Se Palmares não vive mais. Faremos Palmares de novo…”

Mais detalhes sobre a situação do Quilombo Rio dos Macacos:  https://www.facebook.com/aatrba/posts/695092324026257

REFERÊNCIAS

DUARTE, Eduardo de Assis; FONSECA, Maria Nazareth Soares (Org.). Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Belo Horizonte: UFMG, 2011.

Por Ivana Freitas