Ciência & Sertão

Anticiência

“Nesta luta desigual, em que os interesses econômicos jogam contra a ciência, somos reféns deste grande monstro capitalista que manipula e desdenha do próprio futuro do planeta. O que nos resta é torcer, falar e falar…” Por Helinando P. de Oliveira*

imagem da internet

A ciência é, por definição, uma grande construção coletiva em que métodos, ética, avaliação contínua por pares, experimentação e repetição à exaustão funcionam como alicerces para a busca contínua do ser humano pela verdade. Seja para entender o movimento dos corpos no céu ou para curar doenças, a ciência é o grande legado das diversas gerações de anônimos para o futuro.

E o reconhecimento por este trabalho anônimo-coletivo vem até mesmo de grandes estrelas da ciência, como Sir Isaac Newton que outrora revelou em um momento de humildade: “Se vi mais longe foi por estar sobre os ombros de gigantes”.

E os gigantes anônimos ergueram, de fato, um grande castelo de conhecimento que permitiu que as ciências aplicadas evoluíssem ao ponto em que chegamos, tornando a vida no século XXI bem mais simples do que fora 300 anos atrás.

E apesar de tantos fatos, parece que uma parcela crescente da humanidade preferiu caminhar no sentido oposto: no início eram apenas vídeos cômicos que tentavam provar que a terra é plana e as empresas que vendiam alcalina para salvar a saúde de todos. Com o tempo surgiram ações mais graves, como o movimento antivacina, que colocou em risco iminente o retorno de doenças praticamente erradicadas do planeta. Nesta mesma direção, a maior potência do século XX resolve jogar para baixo do tapete o aquecimento global, fingindo que o problema não existe, ou pior, que os dados mostram o contrário do que de fato expressam.

Uma constatação clara de toda esta hecatombe ética que sofremos em escala mundial é de que a ciência está sob ataque. Seja pela prerrogativa capitalista da manutenção do modo de produção; seja pela decorrência indireta de sua ação com a escravização moderna e consentida das nações em desenvolvimento, que optaram por exportar seus cérebros, negligenciando a capacidade de produzir conhecimento.

Nesta luta desigual, em que os interesses econômicos jogam contra a ciência, somos reféns deste grande monstro capitalista que manipula e desdenha do próprio futuro do planeta. O que nos resta é torcer, falar e falar…

– Torcer que nossos filhos não sejam convidados a participar das festas de catapora ou que recebamos em nossa caixa de correios pirulitos lambidos por crianças com varicela – temos problemas seríssimos a resolver, como as bactérias super-resistentes, todas as doenças negligenciadas, a poluição das águas, os agrotóxicos, a escassez de recursos naturais…. Além de contrair a catapora, outras complicações podem acompanhar esta doença: pneumonia, encefalite e até a morte. Em 2015, os EUA sofreram um surto de sarampo como consequência das famosas “festinhas”.

  • Falar mais uma vez que a terra não é plana e nem tão pouco está montada sobre os cascos de tartarugas. Muita gente já perdeu a vida nas fogueiras por defender suas convicções.
  • Falar mais uma vez que temos pouco tempo para salvar o planeta de nossa própria ação. Está lá na Nature: temos três anos para proteger o clima no planeta. Fecharemos os olhos? (http://www.nature.com/news/three-years-to-safeguard-our-climate-1.22201)
  • Falar mais uma vez que estudar história é fundamental. As pessoas precisam entender que na natureza e na vida tudo tende a ser cíclico: vivemos um período muito estranho e que muito se parece com o renascimento do totalitarismo. Foi do sentimento de descrédito na democracia que nasceu o nazismo, foi por esta intolerância que milhões de pessoas foram mortas pela alcunha de uma raça pura…

E é por não querer ser parte do todo que continuamos a trabalhar contra nós mesmos:

  • O planeta compra 1 milhão de garrafas plásticas por minuto e se enterra cada vez mais no lixão que cultua.
  • Os cientistas buscam dinheiro (que é cada vez mais escasso) para suas pesquisas. E os fomentadores da anticiência estão em toda esquina, aguardando e financiando que alguém descubra algo que seja útil a eles. É preciso ter cuidado para não desenvolver a própria anticiência!

Bom senso para salvar o planeta! E uma boa dose de paciência para repetir quantas vezes forem necessárias que ainda somos seres racionais.

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.