Espaço do Leitor

Tuas obras literárias falam por ti

Texto de um dos nossos leitores, em homenagem ao escritor José Américo de lima.

i“Esse texto é uma homenagem ao grande escritor, já falecido, José Américo de lima. Durante muito tempo foi professor da Universidade Federal de Pernambuco, como também, presidente da UBE (União Brasileira dos Escritores), em Petrolina.

Era um homem profundamente envolvido com a leitura e paixão de escrever. Ficava absorto em seu mundo particular e seus pensamentos construíam uma literatura de grandeza e qualidade. Além de exercer papel importante no campo da escrita, também era um pesquisador e amava ópera.  Publicou um acervo de livros que marcou época em editoras e no leitor em geral. Dono de um vocabulário muito rico no universo literário.

O que me impressiona é que o mesmo fixou residência por aqui e Petrolina não se deu conta da presença desse grande escritor Pernambucano. Como uma neblina que vem e passa, o mesmo passou por nós e partiu sem dizer adeus, até logo! Perdi a oportunidade de aprender a colocação das palavras, o universo e a magia da escrita, o segredo de um bom texto, o capricho de escrever muito em frases curtas, e a eficiência e capacidade de enriquecer uma produção com sutileza e maestria do arguto biólogo e educador.

Ele Não tocava trombeta para dizer que já era escritor de renome, não chamava atenção entre aqueles que ainda estavam descobrindo o prazer das letras, dos textos poéticos e belíssimas criações em formas de poemas e romances, tal como eu, em reuniões da UBE. O texto vestibulando, que estou publicando em seguida, é uma dissertação, fruto da imaginação fértil dele. Na verdade, essa redação é baseada numa história real, de um vestibulando da Universidade Federal de Pernambuco, que só conseguiu macular a página em branco com as seguintes palavras: “Quanta dor de cabeça (dor de cabeça filha da puta).” E, corrigindo tal rascunho, ele, José Américo de Lima, desenvolveu o tema a sua maneira e criatividade, com argumento culto e eloquente. Até hoje não sei como esse escrito veio parar em minhas mãos. Agradeço a gentileza da filha dele, Kátia, esposa do conceituado neurocirurgião Dr. Ezir Araújo, pela colaboração nas informações numa conversa prazerosa e emocionante.

VESTIBULANDO

Quanta dor de cabeça (dor de cabeça filha da puta).

Página em branco, trinta linhas à espera, linhas horizontais na página horizontal expectante. Turbilhão de ideias, nenhuma definida, minutos em perseguição, na busca do prazo inexorável.

Tudo programado: papel, linhas, tempo, tema.

Necessário escrever correto, limitado, coerente, garantir qualidade no escrito, para enfrentar julgamento.

Dor de cabeça insistente supera vontades, impões divagações, dissolve pensamentos, despropósito.

Afinal, o que fazia ali, em meio à dezena de milhares, ele, insignificante comerciário boia fria, estudante só de nome, frequentador de escola noturna, indefeso entre os bens aquinhoados da minoria privilegiada?

Ainda branca a página, ainda virgem a mentalização do texto.

A discriminação exercia o seu impacto, em igualdade de condições competiria, pobreza não pressupõe mediocridade. Não assim, dividido em horas, oito de trabalho estafante, duas de transporte precário, quatro de aulas modorrentas em colégio público, deficiente.

O que lhe sobrava, além de cansaço e desilusão? Apenas angústias e carências, de alimento, de livros, do trivial. O dinheiro da inscrição tomara emprestado, dívida inútil, reconhecia agora. Fora levado, impulso momentâneo, injustificado entusiasmo, seu direito, livre escolha, ilusória liberdade na base do sistema, oportunidade igual para todos.

Por que a responsabilidade individual deveria assumir a obrigação do poder emanado do povo? Ele mesmo, do povo, fração do poder, estava ali, impotente, vulnerável.

O tema da redação, agravante ironia: “O dinheiro não compra tudo”.

Desnecessário evidenciar sua incompetência, macular a página, engravidá-la irresponsavelmente. Despreparado, por que se expor ao ridículo, sofrer as costumeiras zombarias e humilhações de uma sociedade alienada, castigo pela ousadia de equiparar-se à elite?

Registraria naquela página apenas o que sentia no momento, além da revolta: Quanta dor de cabeça (dor de cabeça filha da puta).”.

 

Antonio Damião Oliveira da Silva (damis.oliver@hotmail.com)

Guarda Municipal Petrolina-PE

Graduado em Matemática FFPP