Patrick Campos

Caminhos para o PT: Programa à esquerda ou federação ao centro?

“É fundamental que o PT adote uma tática de enfrentamento contra todos esses setores, organizando uma campanha em torno de um programa de esquerda e não caindo em ilusões conciliatórias ou em flertes como esse do PSB. É essa a resposta que precisamos ter diante das demonstrações de força e resistência que a classe trabalhadora deu ao longo de todo esse ano.”. * Por Patrick Campos

Começamos o último mês desse difícil ano de 2021. Um ano marcado pela segunda onda da pandemia de Covid-19 e pelo agravamento da crise social e econômica provocada pelo governo Bolsonaro. São cerca de 20 milhões de pessoas passando fome, mais de 15 milhões sem encontrar emprego, uma inflação que tem feito o carro do ovo vender a bandeja a R$ 16,00 e uma política de preços na Petrobras que faz o preço da gasolina chegar a quase R$ 8,00.

Por conta do governo Bolsonaro, de seus aliados e de suas políticas, o balanço do ano de 2021 é muito ruim para a maioria do povo brasileiro. Diante de uma situação tão difícil, será que podemos olhar para 2022 com esperanças? Acredito que sim.

A classe trabalhadora brasileira deu importantes demonstrações de força, mesmo diante das enormes dificuldades enfrentadas. Apesar dos riscos do vírus, foram diversas mobilizações que levaram centenas de milhares de pessoas às ruas do país em defesa da vacina, de empregos e contra a fome. Ao mesmo tempo, após a recuperação dos direitos políticos de Lula, ele lidera todas as pesquisas de opinião para as eleições presidenciais do próximo ano.

Ou seja, existe uma janela de oportunidade para que a classe trabalhadora derrote a extrema direita e seu projeto de morte e fome. No entanto, a existência da janela não significa que vamos conseguir passar por ela. Em outras palavras, a vitória precisa ser construída, pois ela não cairá do céu e nem será entregue por delivery se ficarmos esperando em casa.

Uma questão fundamental para construirmos essa vitória é termos muita nitidez programática. Uma parcela expressiva da classe trabalhadora continua cheia de dúvidas se Lula conseguirá ser candidato, se conseguirá tomar posse, se conseguirá governar e, governando, o que fará para acabar com toda a desgraça que a direita vem fazendo com o país desde o golpe de 2016.

Por isso, não podemos terminar o ano de 2021 dando sinais que aumentam essas dúvidas, como a absurda hipótese de uma composição com o tucano Geraldo Alckmin. Da mesma forma que é um erro apressar o debate sobre as federações partidárias e terminar o ano flertando com uma sugestão de federação com o PSB, partido que em 2014 lançou candidatura contra Dilma e que apoiou Aécio no segundo turno; votou pelo impeachment em 2016; que em 2018, diante da disputa entre Lula e Haddad contra Bolsonaro, optou pela neutralidade; e que em 2020 promoveu uma das mais raivosas campanhas antipetistas do país.

É evidente que o PSB pode fazer uma reorientação da sua política. Que a banda de esquerda do partido poderia combater sua banda de direita. E seria ótimo que isso ocorresse. No entanto, não há indícios de que isso esteja em curso, pelo contrário. Além das tratativas para a filiação do tucano Geraldo Alckmin, parte da bancada do partido tem sido aliada de primeira ordem de Arthur Lira e da política bolsonarista na Câmara dos Deputados.

É por isso, também, que o flerte de dirigentes do PT com a proposta de federação partidária feita pelo PSB é muito ruim. Indica um caminho equivocado, que tem como pano de fundo a busca de uma moderação e de um centro que apenas rebaixa o debate programático. O momento é de fazer exatamente o contrário. É de avançarmos em torno do programa que queremos para o Brasil e, a partir dele, definir a tática e quais aliados estarão juntos.

Afinal de contas, a federação proposta pelo PSB é para desfazer as reformas trabalhista e da previdência? Para acabar com o teto de gastos que limita os investimentos na saúde e na educação? É para combater a atual lógica de hegemonia do agronegócio? Para enfrentar o monopólio dos grandes bancos? Até onde sabemos, não é para isso.

Além do mais, o que tem ocorrido na América Latina e região dá indícios do que podemos enfrentar aqui. No Peru, foi para o segundo turno a candidatura de extrema-direita representada pela filha do ditador Fujimori contra uma candidatura de esquerda, que atropelou as candidaturas de centro. O mesmo acaba de ocorrer no Chile, em que uma candidatura de extrema-direita que defende o legado do ditador Pinochet foi para o segundo turno contra uma candidatura de esquerda, numa situação de grande polarização.

Nos dois casos, assim como na Argentina, na Bolívia e na Venezuela, locais em que obtivemos vitórias eleitorais recentes, foram fundamentais a luta social, a mobilização popular e a defesa de um programa de enfrentamento ao neoliberalismo. Nesses e outros lugares, todas as movimentações rumo ao centro implicaram em fragilização.

Aqui no Brasil, estamos entrando num período de arrefecimento da luta social, que pode se estender até o mês de março de 2022 (período pós carnaval). Nesse período, todas as frações da direita continuarão se movimentando. O bolsonarismo avançará com a tentativa de recuperar apoio popular e crescer em cima do eleitorado de Lula a partir do desmonte do Bolsa Família e do pagamento de R$ 400,00 via Auxílio Brasil. Além disso, fortalecerá sua base de apoio parlamentar por meio do bilionário orçamento secreto e emendas de relator.

Já a direita “não bolsonarista” seguirá na busca de uma candidatura alternativa a Bolsonaro que garanta a continuidade do programa econômico ultraliberal. Rodrigo Pacheco, Alessandro Vieira, Ciro Gomes, João Dória, Eduardo Leite e Sérgio Moro são algumas dessas opções. Não podemos subestimar a “terceira via”, principalmente com a presença de Moro. E sabemos que, caso nenhuma delas emplaque, Bolsonaro continuará sendo a alternativa das elites para derrotar Lula e o PT.

Por isso, é fundamental que o PT adote uma tática de enfrentamento contra todos esses setores, organizando uma campanha em torno de um programa de esquerda e não caindo em ilusões conciliatórias ou em flertes como esse do PSB. É essa a resposta que precisamos ter diante das demonstrações de força e resistência que a classe trabalhadora deu ao longo de todo esse ano.

É essa a conduta que precisamos ter para encarar o ano de 2022, que exigirá muita luta social e muita mobilização popular para derrotar a direita nas ruas e nas urnas. E mais do que isso, para conseguir desfazer suas maldades. Fica aqui a questão: faremos isso ombreados com quem votou nas reformas neoliberais? Ou faremos isso para derrotar quem votou nas reformas neoliberais?

 

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores