Colunas

Sobre intenção

“O racismo institucional consiste na falha coletiva de uma organização pública ou privada em prover um serviço apropriado e profissional às pessoas por causa de sua cor, cultura ou origem étnica. E no Brasil, esta falha é histórica e crônica.” *Por Nilton de Almeida

Nesta semana o Ponto Crítico publicou uma denúncia da SindUnivasf (Seção Sindical dos Docentes da Univasf), quinta-feira, 30, sobre um ato de discriminação com estudantes negros ocorrido na Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), envolvendo dois calouros negros matriculados no semestre 2017.2, no campus Juazeiro.

Alguns docentes da Univasf tem questionado a validade deste pronunciamento da SindUnivasf, em especial se os seguranças denunciados teriam ou não a “intenção” de ser racistas. O presidente da SindUnivasf e colunista do Ponto Crítico produziu uma reflexão a respeito na lista institucional dos servidores da Univasf e socializa conosco este texto.

 

Sobre “intenção”:

 

Quando A pega uma pedra e joga na cabeça de B sangra, machuca.

Pode sequelar, pode matar.

Independente da intenção.

Vou mencionar aqui uma nota do Conselho Universitário sobre racismo institucional:

“O racismo institucional consiste na falha coletiva de uma organização pública ou privada em prover um serviço apropriado e profissional às pessoas por causa de sua cor, cultura ou origem étnica. E no Brasil, esta falha é histórica e crônica.”

O texto completo aprovado pode ser conferido em http://www.univasf.edu.br/temp/arquivo-n3124_1.pdf

Existe hoje um acervo colossal de pesquisas, análises e trabalhos quer em formato escrito, quer em formato audiovisual, sobre racismo.

É preciso, aliás, URGENTE, que nós, integrantes dos três segmentos, façamos isso.

Conhecer mais. Ir além do senso comum. Consultamos especialistas quando não somos familiarizados com um tema.

Façamos isso. Ultrapassemos o senso comum. E principalmente, sejamos antirracistas na prática.

Alguém cogitou se colocar no lugar dos estudantes?

Alguém cogitou se colocar no lugar d@s estudantes negr@s que passam por isso tod@s os dias?

Aí, o que temos é um silêncio sepulcral.

Pois bem, no sentido de contribuir para o debate e para consolidação do antirracismo institucional – pergunto, interessa-nos fortalecer o antirracismo institucional – sugiro a tod@s que leem esta mensagem que assistam ao documentário “Olhos Azuis”.

O experimento não é consensual, é polêmico, mas ninguém sai o mesmo depois de assisti-lo.

Por duas horas e meia indivíduos que têm olhos azuis são separados do restante do grupo e bombardeados por um tratamento discriminatório semelhante ao que os negros e outras etnias vivem diariamente nos Estados Unidos. Ao fim – spoiler – a professora branca coordenadora do workshop pergunta como eles se sentiam depois de passar por 2h30 por aquelas vivências. Depois pergunta como eles acham que uma criança negra que vive aquelas situações todos os dias se sentem. Vale a pena assistir.

Basta acessar https://www.youtube.com/watch?v=AeiXBLAlLpQ

<<OLHOS AZUIS é um documentário frio sobre um tema fervente: os workshops sobre racismo desenvolvidos pela norte-americana Jane Elliott.

O filme acompanha, especificamente, um desses workshops, realizado em Kansas City com 30 pessoas, entre professores, policiais e assistentes sociais.>>

Em tempo: é moralmente aceitável uma lógica em que: a ) há suspeita de tráfico na Univasf; b) nenhum traficante foi preso; c) vamos mostrar serviço abordando a partir de estereótipos?

Se há traficantes identificados, por que ELES ainda não estão presos e processados? Para que abordagens avulsas que, não por coincidência, incidem maciçamente sobre estudantes com um perfil étnico bem preciso?

Em tempo 2: orientei um capitão da Polícia Militar da Bahia, numa monografia, justamente, sobre estereótipos na abordagem (monografia defendida em 2016 na UNIVASF).

Mais de uma vez, antes da denúncia de discriminação desta semana, propus ao Conuni realizar uma exposição no Conselho para fomentar o debate e um novo horizonte de práticas e discursos em nossa universidade.

Até hoje espero.

E olha que faço parte do Conuni como representante docente com voz.

Estou sempre lá disponível.

Mas até hoje, espero.

Aproveito o ensejo para colocar não só esta pesquisa, mas o trabalho do ETC – Observatório de Estudos em Educação, Trabalho e Cultura rede oito edições do Mês das Consciências Negras – à disposição da Reitoria, do CONUNI, das Pró-Reitorias, Colegiados e demais órgãos. Desde que haja um compromisso real de incorporação da agenda antirracista, e não um evento ornamental.

E enquanto estivermos à frente do biênio da SindUnivasf, também a Seção Sindical se soma às iniciativas concretas de combate à hipocrisia racial.

Dentro e fora da Universidade.

Tem uma coisa em que estou de acordo. Uma.

Vamos investigar mesmo.

*Nilton de Almeida Araújo é professor de História do Brasil, presidente da SindUnivasf (2016-2018), integrante dos Movimentos Antirracistas do Vale e membro do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Juazeiro.