Cultura

Coletânea de textos de mulheres quilombolas inaugura Selo Sueli Carneiro

Obra “Mulheres Quilombolas: Territórios de Existências Negras Femininas” é escrito por 18 quilombolas de todo o país

“Mulheres quilombolas: territórios de existências negras femininas” retrata os saberes, vivências e resistências de 18 mulheres de vários quilombos do Brasil. – Reprodução Instagram

“Ser mulher quilombola é saber que faço parte de uma raça que tem resistência, que luta todos os dias contra o preconceito, buscando sempre os nossos direitos”, conta liderança do Quilombo Grossos, no Rio Grande do Norte, Andreia Nazareno, ao ler um trecho do livro Mulheres Quilombolas: Territórios de Existências Negras Femininas.

Composto por histórias, artigos, textos, versos e poemas, a obra inédita publicada no final de outubro pela Editora Jandaíra, é a primeira do Selo Sueli Carneiro, escritora e fundadora do Instituto Geledés.

Sob coordenação da filósofa e também escritora Djamila Ribeiro e organização de Selma Dealdina dos Santos, da secretária Executiva da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), dessa vez, as autoras são 18 mulheres quilombolas de comunidade de todo o país, entre elas Nazareno, gestora de cooperativas e agricultora da sua comunidade.

“Uma de nossas companheiras conheceu a Djamila e a convidou para que escrevesse um texto para um livro que estava escrevendo. Djamila aceitou o  convite, mas falou: ‘olha eu até topo, mas desde que a gente faça uma produção coletiva’. Foi então que ela circulou e as 18 mulheres escreveram artigos”, conta Givânia Silva, que também é uma das autoras do livro.

Ela nasceu no Quilombo Conceição das Crioulas, em Pernambuco, atua como professora da Universidade de Brasília (UnB).”Não estão preocupadas com a linguagem da academia, mas a teoria que a gente, muitas de nós, colocou neste livro foi a teoria com a prática de suas próprias vidas”, completa Givânia.

Para Sueli Carneiro a obra é uma “coletânea histórica”, que retrata “a mais antiga luta” da população negra. “É uma somatória de múltiplas resistências, múltiplas gerações de mulheres, de múltiplos tempos. Uma coletânea de mulheres quilombolas que representam a mais coletiva de todas as nossas lutas, que é a luta quilombola em defesa dos nossos territórios tradicionais”, disse a escritora durante o lançamento em uma transmissão ao vivo pela página da Conaq, realizado no dia 24 de outubro.

O livro traz uma pluralidade de temas que vão desde a agricultura, saúde, resistência e educação. Possibilita a chance de compreender a realidade dos quilombos no Brasil.

“Eu escrevi sobre o nosso jeito de ser aqui na comunidade. Nós somos, aqui na comunidade do Carrapato muito altivas, eles nos chamam de atrevidas. Mas esse atrevimento foi necessário para adquirirmos respeito”, relata a chefe de cozinha aposentada Sandra Maria, do Quilombo Carrapatos da Tabatinga, em Minas Gerais, também autora do livro.

Para ela, assim como para Givânia e Andrea, foi “uma alegria imensa” contar sua própria história e de suas ancestrais na publicação. “Eu não sabia se ria e se chorava, e ficava gritando: ‘gente chegou, chegou, chegou”, conta Sandra.

O livro já está disponível para compra nas livrarias de todo Brasil e no site da Editora Jandaíra.

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