Entrevistas

O racismo da medicina no Brasil

A medicina brasileira tem um passado racista; erradica-lo ainda é um desafio imenso

Formandos em Medicina pela UFRJ em 2015: encontre um negro, se puder – Youtube

Eugenia era uma teoria muito na moda na virada do século 19 para o 20, que defendia a não miscigenação de raças, como solução para fortalece-las. Sua popularidade seguiu intensa até meados do século passado, quando os horrores praticados pelo nazismo e a descoberta do DNA – mostrando que o código genético de indivíduos não é determinado pela cor da pele – a levou ao ostracismo.

Antes disso, no entanto, ela era tão respeitada que ajudou a forjar a forma como a medicina brasileira foi estruturada. Pior: muitos de seus cacoetes racistas perduram até hoje. São comuns os casos de denúncias de preconceito racial envolvendo médicos. E essas ideias, lamentavelmente, costumam receber os futuros médicos logo que entram nas faculdades: são frequentes os episódios de trotes racistas em alunos recém ingressos nas instituições.

“A saúde foi a porta de entrada das teorias eugenistas no Brasil e se o racismo brasileiro tem uma certa forma, quem deu essa configuração foi o campo da saúde”, afirma a mestre em saúde pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP Mônica Gonçalves, autora da tese “Raça e saúde: concepções, antíteses e antinomia na atenção básica” sobre os impactos do preconceito no atendimento médico.

Tais teorias chegaram no Brasil em 1914, de acordo com a historiadora Lilia Schwarcz, e foram estudadas e aprimoradas na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Por ali passaram Renato Kehl – posteriormente nomeado o pai da eugenia no Brasil – e o famoso Doutor Arnaldo (que virou nome de uma importante avenida em São Paulo), fundador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e membro da sociedade eugenista do estado.

O apoio dado por Doutor Arnaldo a teoria é simbólico e ilustra as raízes da ciência médica do país. Mônica Gonçalves, mestre em psicologia, conversou com CartaCapital sobre os impactos que o racismo e a desigualdade social tem na medicina no Brasil até hoje e afirma que não é possível “descolar a medicina do lugar histórico que ela ocupa”

CartaCapital: O que mais te marcou no resultado da pesquisa?

Mônica Gonçalves: Algumas coisas chamam bastante atenção.Uma é que as pessoas ainda entendem a raça como uma coisa biológica. As pessoas acreditam também que a raça influencia na medida em que pessoas negras e brancas vivem em condições sociais diferentes. Ao mesmo tempo, elas não deixam de acreditar que a raça é algo inerente e que as pessoas pretas tenham características “constitutivas”, biológicas, diferentes. Por exemplo, no trabalho, aparece a crença de que existe uma constituição arterial e óssea diferente entre brancos e negros, assim como diferenças genéticas que justifiquem diferentes incidências de doenças nesses grupos. E outra coisa que chama a atenção é que não há espaços de discussão na formação em saúde que permitam que esses profissionais pensem ou repensem a raça. Nessa lacuna, o repertório para atuar diante das pessoas negras é o senso comum, essa aprendizagem de todo dia, permeada por muitas noções racistas. É disso que os profissionais dispõem, já que a raça está sempre presente, não há como fugir. Mas não há uma contestação na formação dessas noções equivocadas sobre a raça, criadas pelo racismo.

CC: E como essas práticas racistas acontecem?

MG: Por exemplo, um homem negro ser entendido como ludibriador, “drogado”, sedutor. Ele não recebeu assistência porque acreditava-se que estava mentindo quanto a sua queixa. Se ninguém numa equipe de saúde for capaz de entender que sedutor, mentiroso, ludibriador, são significantes que estão acoplados ao homem negro a partir da invenção dos sistemas raciais, isso vai passar desapercebido, como se se tratasse desse sujeito, e não da ideia do que seja o grupo, do que sejam as pessoas negras como um todo.

CC: E por que você acha que o racismo persiste?

MG: A nossa sociedade é estruturada pelo racismo. A saúde é apenas mais um espaço, e o profissional da saúde é só um nessa cadeia. Ele pode operar pela cadeia ou não, e de modo geral eles operam. Além disso tem um tanto de desconhecimento também. E tem gente que é racista mesmo e pronto. Um dado importante do meu trabalho que o racismo opera de maneira insidiosa, sem se revelar explicitamente. Há sempre uma desculpa, um pretexto que justifica. Se as pessoas não forem capazes de ler isso, não serão capazes de decifrar que se trata de racismo, como no caso deste rapaz. Isso ajuda que o racismo persista, porque permite que ele continue silenciosamente, de um jeito sorrateiro.

CC: E como você enxerga o racismo na saúde?

MG: Os relatos dos profissionais que eu entrevistei mostram que o racismo acontece pela articulação das esferas estrutural, institucional e interpessoal. Essas pessoas pretas, por estarem longe geograficamente, já estariam excluídas. E quando entra, junto a isso, a ação direta de um profissional, os impactos são mesmo implacáveis. E essa ação não acontece pela discriminação direta e ativa. Acontece, principalmente, pela negligência e pela omissão. O racismo, as vezes, determina os destinos das pessoas em relação à morte ou vida. Mesmo quando as pessoas brancas e negras tem o mesmo quadro, as mesmas possibilidades de melhora, o racismo atuar e alterar as possibilidades de tratamento.

CC: Como essa diferença de tratamento acontece?

MG: O relato sobre esse jovem que, por exemplo, eu citei. Ele chega com uma queixa de insônia, e não é atendido por 5 anos. Depois desse tempo, ele se suicida. Trata-se de um homem negro, deprimido, com a queixa mais inicial de depressão. Ele busca ajuda, mas é sistematicamente barrado, por discursos muitas vezes contraditórios, mas sustentados pelo racismo. Um dado importante do meu trabalho é evidenciar que o racismo opera também em reverso, pela discriminação positiva, com a escolha de pessoas brancas a serem assistidas. Há um relato de um homem branco em situação de rua que, em cinco meses, está em recuperação de uma cirurgia de hérnia, cuja fila é de dois anos. O que justifica que ele passe a frente, quando há uma população de rua em torno de 80% negra esperando pelo mesmo atendimento? A médica que relata este caso conta que a equipe toda se mobilizou para atendê-lo, que o médico reservou a sala de cirurgia fora da espera. E ela afirma que ele teve a simpatia da equipe por ser branco também. É um caso que o racismo opera, mas pela via da branquitude, das alianças entre os brancos.

CC: O você acha que vai acontecer com a saúde no governo Bolsonaro?

MG: Eu não tenho nem palavras. É uma tragédia anunciada. A distância entre a população preta e a população branca vai aumentar ainda mais e nós vamos voltar a morrer de coisas que a gente não morria mais. É um governo de morte.

CC: Mas você acha que o Sistema Único de Saúde estava avançando nos últimos anos?

MG: Não. O SUS é um grande projeto. Ele pretende ser universal, atender a todos igualitariamente, conforma a necessidade de cada um. Isso não é pouca coisa, e, neste sentido, o grande avanço do SUS foi ter sido criado. E nós tivemos avanços, como a política de saúde mental, o tratamento de HIV, Aids e hepatite, por exemplo. Nós temos uma das melhores políticas de transplante do mundo. Mas são políticas que não funcionam sem investimento e o financiamento do SUS não aumentou. O SUS é sistemática e historicamente atacado pelo sub-financiamento, e não é possível sustentar uma política desta envergadura sem financiamento. Temos que fazer a defesa do SUS, mas não pode ser acrítica. É necessário também mudar o foco, que sempre esteve na atenção hospitalar, que é muito lucrativa porque tem muito equipamento, para a atenção primária, onde você precisa de gente, conhecimento e de transformação social. E é onde se resolvem a maior parte dos problemas de saúde da nossa população.

CC: E você acha que os profissionais brasileiros estão preparados para praticar uma medicina que precisa mais de gente do que de equipamentos?

MG: De modo geral, os profissionais de saúde não estão preparados pra isso. Alguns mais, como os de enfermagem. E os médicos estão entre os menos preparados, definitivamente. E o Mais Médicos só foi pensado por causa disso. Os médicos não só estão despreparados do ponto de vista da formação acadêmica e técnica, mas também da formação simbólica. A medicina ainda é uma profissão de elite e essas pessoas, assim como as instituições, têm na medicina um projeto de vida, não um projeto de estado. De modo geral, se faz medicina porque se quer ganhar dinheiro, status ou pertencer a um grupo. As instituições oferecem isso, e os sujeitos desejam isso. Não que elas não queiram ajudar as pessoas, mas não sem abrir mão desse precedente. A medicina e os médicos precisam fazer o enfrentamento de como essa profissão de constitui, historicamente. Sem isso, me parece impossível rever este lugar e atuar conforme as necessidades da nossa população.

CC: E qual é o papel das cotas na mudança do perfil do médico brasileiro?

MG: É muito importante, eu acredito muito nas cotas. A cotas mudaram radicalmente o perfil das universidades, colocaram os conflitos raciais em evidencia, fizeram o racista e seu discurso saírem do armário. E isso é bom, porque radicaliza o enfrentamento do racismo. Quem está na universidade sabe que o caráter da pesquisa mudou radicalmente. São as pessoas negras que estão, majoritariamente, produzindo sobre o racismo e as desigualdades. São temas que dialogam com os problemas da nossa população, mas que eram pouco contemplados e que ganham fôlego quando os pretos estão na universidade. Na medicina, um curso de elite, difícil de entrar e tão atravessado por um pensamento racista, elas são ainda mais importantes. Promover as cotas nos cursos de medicina é uma forma de combater o racismo na saúde lá na formação, na porta de entrada. Tem quem critique dizendo que as pessoas só são jogadas lá. É isso mesmo. Você joga as pessoas lá. A gente não foi jogado no navio negreiro? É isso. Agora a gente tá aqui e foi jogado na universidade. Bem melhor, entendeu?

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