Cosmopolita

Eu também vou reclamar: um desabafo sobre intolerância, sobrevivência e a utopia de uma sociedade alternativa

O negócio agora é fazermos o que sabemos melhor: sobreviver. Se é de batalhas que se vive a vida, tentemos outra vez.

Por Edianne Nobre*

Eu vi Cristo ser crucificado
O amor nascer e ser assassinado
Eu vi as bruxas pegando fogo
Pra pagarem seus pecados
Eu vi!

– Raul Seixas, Eu nasci há dez mil anos atrás, 1976.

Tem uma música do Raul que diz: “essa noite eu tive um sonho de sonhador, maluco que eu sou. Eu sonhei com o dia em que a Terra parou” (O dia em que a terra parou, 1977). Essa noite eu também tive um sonho, mas o contrário do sonho de Raul, o mundo não parou para que as pessoas percebessem que o que elas faziam não tinha mais sentido.

No meu sonho-pesadelo a Terra se abriu e libertou todos esses absurdos que estamos vivenciando no nosso cenário político e social. Eu sei que não é algo que surgiu de um dia para outro e que tudo o que estamos vendo é resultado de anos de corrupção, anos de concentração de renda nas mãos de algumas famílias, anos de injustiça, mesmo assim é difícil de acreditar.

Vivemos um momento assustador, marcado pela intolerância e pela libertação de preconceitos, antes sufocados pelas diversas lutas sociais do final do século XX. A internet, espaço virtual que propicia uma circulação imensurável de informações, muitas vezes, também se torna uma terra sem lei onde as pessoas acreditam que podem propalar aos quatro ventos tudo o que vem em suas cabeças. Há uma confusão geral no que diz respeito à chamada “liberdade de expressão” e parece óbvio, mas cada vez mais precisamos enfatizar que nossa liberdade de expressão acaba no momento em que se torna ofensiva ao outro, tipo os tweets abaixo publicados horas após a consolidação do processo de impedimento da presidenta Dilma Roussef:

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[Imagens: Revista Fórum]

A internet com seu poder de aproximar as pessoas, curiosamente, promove também um afastamento dos princípios básicos da ética e do respeito. Supostamente protegidos pelo espaço virtual, agressores de todos os tipos revelam suas facetas machistas, misóginas, homofóbicas e racistas. Fico surpresa de ver pessoas que no convívio cotidiano se mostram respeitosas e doces, usarem a internet como forma de extravasar todo o preconceito que não têm coragem de manifestar ao vivo.

Então, eu também sonhei que barulhentas botas entravam na minha sala de aula e me detinham por dizer aos meus alunos que eles podiam refletir. Reflexão. Justamente a habilidade que nos diferencia de outras espécies. Nós, seres humanos, somos capazes de pensar, de refletir e racionalizar sobre os nossos atos. Imagina um professor sendo preso por dizer a seus alunos que eles podem pensar. Na verdade, nem precisar imaginar, olha para trás um pouco, lê um livro de História e você vai saber que já aconteceu: a censura, a educação de um partido só, escutas nas salas de aulas, “alunos” contratados para vigiar professores foram elementos presentes nas escolas e universidades brasileiras durante a vigência da Ditadura Militar no Brasil (1964 a 1985).

Quantos professores não foram presos e torturados por estimular seus alunos a refletir sobre o que viviam? Porque ensinavam sobre esse mal acumulado, sobre as pessoas que só querem tudo para si e nada para os outros?

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Quando eu era criança, cansei de ouvir que pobre só tinha futuro se estudasse. Eu estudei. Me matei de estudar, “queimando pestana” dia e noite, como dizem no Ceará. Hoje eu sou professora doutora e devia estar contente “por ter conseguido tudo o que eu quis, mas confesso abestalhada que eu estou decepcionada” (Ouro de Tolo, 1973). Diante deste retrocesso que estamos vivendo, como poderei dizer a meus sobrinhos e alunos que eles precisam estudar, se os programas de educação estão sendo dilacerados, filmes estão sendo censurados e uma mulher digna que não cometeu crime algum foi julgada e condenada por um bando de pessoas que possuem uma ficha que deixaria Al Capone envergonhado?

Vivemos uma sociedade alternativa por 13 anos, na qual apesar dos vários problemas administrativos, pudemos nos encantar com a possibilidade de sonhar: com um prato de comida na mesa, com mobilidade e igualdade social, com um mundo melhor e com a liberdade de se expressar respeitosamente. Tudo isso foi por água abaixo nesta semana. A Democracia morreu.

O negócio agora é fazermos o que sabemos melhor: sobreviver. Se é de batalhas que se vive a vida, tentemos outra vez.

 

* Edianne Nobre é contadora de histórias, leonina e filha de Oya. Já morou em algumas cidades do mundo e agora vive em Petrolina. Antes de morrer quer viajar muito mais, saltar de paraquedas e dançar um tango em público.