Cosmopolita

Do direito à tristeza

Não precisa ser um gênio para perceber a tristeza no outro, mas precisa muita coragem para chegar perto e oferecer um ombro.

Por Edianne Nobre*

Tris.te.za. s. f.
1. qualidade ou estado de triste;
2. estado afetivo caracterizado
pela falta de alegria; 3. pela melancolia.
4. caráter do que desperta esse estado.

 

Cheguei de viagem ontem. Por aqui coração batendo forte, mais que tambor de escola de samba. Tenho uma percussão dentro de mim. Dói. Me perguntaram porque parei de escrever. Nunca parei de escrever. Parei de publicar. Por que? Primeiro, porque sinceramente penso que ninguém está interessado no que escrevo. Eu sou a personagem da minha história. Eu sou Edi-Anne with an E. Segundo, porque tenho tendências a refletir sobre assuntos que me incomodam, quase sempre temas muito melancólicos, meu humor predominante, segundo Hipócrates, e muitas pessoas acham que me exponho demais.

As pessoas têm medo de se expor. Quer dizer, têm medo de expor o “real”. O que sentem de verdade, lá no fundo daquele órgão estúpido que temos no peito. Eu tenho medo de sufocar. <Angústia é fala entupida>, dizia Clarice Lispector.

Nenhum problema em expor a “felicidade”, claro. Ser feliz é bom, saudável e rende curtidas no facebook twitter instagram. Vejamos um perfil ideal: pode uma selfie na academia #vidasaudavel; pode selfie sozinha no quarto, maquiagem no rosto, roupa nova, uma taça de vinho ou cerveja, para mostrar que <pensaram que eu estava na pior> #nottodaysatan. Pode foto de família feliz, mesmo que internamente eles se odeiem, o que importa é ficar bem na foto, principalmente durante o dia das mães, do pais, aniversários, e, claro, no Natal #familiatop. Pode foto de “amigos” do trabalho ou da universidade. Melhor foto é aquela com todos levantando alguma bebida para o ar #amigosprasempre. Pode foto da namorada ou namorado, de preferência dando beijinho, com um olhar enviesado para a câmera de quem quer olhar para foto mas não quer perder o amor de vista #amorverdadeiro. Pode foto de viagem na praia ou no campo, de preferência perto de água corrente e em pose de contemplação #viagemabençoada.

Mas foto triste, não. Ser triste é feio. Gente triste é feia. Ter depressão pode, afinal é a doença do século. Mas não pode mostrar. O mundo contemporâneo é cruel com quem sofre. As pessoas não se permitem mais demonstrar o que sentem e <<no geral, eu finjo bem>>. Não tenho nada contra as imagens de felicidade que citei acima <hapiness is a warm gun>. Só reivindico meu direito de sentir-me blue.

No filme Divertida Mente, a personagem Tristeza (Sadness) ganha destaque por mostrar que estar triste não é necessariamente algo ruim. Não precisa ser autodestrutivo e pode ajudar a lidar melhor com as dificuldades.

Personagem Tristeza em Divertida Mente.

Mas eu dizia no começo do texto que voltei de viagem ontem…  e viajar é minha saída nesse mundo louco. Já conheci muitos lugares, <<já morei em tanta casa que nem me lembro mais>>. Fui ao sul maravilha, um friozinho bom de outono, minha estação preferida. Com chuva e folhas de castanheiro espalhadas por todo lugar. Em Porto Alegre fiquei num Airbnb (melhor invenção ever depois do Uber) de uma senhora de sessenta anos. Aposentada e sem filhos, ela decidiu começar a receber pessoas. Um lugar lindo, de frente para o Rio Guaíba (que não é mais bonito que o São Francisco, mas…). No sábado, passei o dia com amigos: comida, risos, conversas maravilhosas #friendsforever. Eu estava feliz. Aí vem a novela.

Sabe aquele tipo de pessoa que não pode ficar feliz porque acha que tem algo errado? Bate logo um pressentimento de que algo não vai dar certo, coração bate mais rápido, taquicardia e a porra toda? Sou eu. Pois é. No domingo, provocada por uma situação que não convém registrar aqui, estive triste todo o dia. Uma tristeza daquelas que você quase pega com as mãos de tão palpável que é. Daquelas que as lágrimas ficam constantemente ameaçando cair. Tem coisa que é de uma violência incrível. Que toca na gente. Fundo. E eu sou uma empata (não sabe o que é? Veja aqui).

A senhora da hospedagem percebeu. (Culpa da intensidade transparência clareza que trago em mim.) Não precisa ser um gênio para perceber a tristeza no outro, mas precisa muita coragem para chegar perto e oferecer um ombro. Não é todo mundo que faz isso porque tristeza é uma doença que pode contaminar. E no mundo moderno ninguém quer ficar doente. Ninguém gosta de gente doente, de gente triste. As pessoas toleram. Tolerar é diferente de respeitar.

Dona A., vamos chamá-la assim, percebeu minha inquietude e me ofereceu seu ombro. E me disse algo que eu nunca vou esquecer na vida: < curta a sua tristeza, não a despreze, não pense que ela é feia. Sua infelicidade é parte de você também. Não tenha vergonha de se sentir assim. As pessoas esqueceram-se como sofrer e não aguentam mais a pressão, mas se você acolher a sua tristeza, deixá-la entrar e procurar entendê-la, cada dia mais você aprenderá a conviver com ela e, um dia, ela poderá partir tranquila >. Carpe Diem ainda que triste.

Neste dia, não teve foto no Instagram. Não teve hashtag. Eu fiz o que sempre faço quando sofro. Desativo minhas contas no mundo virtual para não me desativar no mundo real. E escrevo. <Insisto na maldade de escrever>. E a tristeza pode ser um patinho feio, mas eu tenho direito a senti-la. Todos temos. Eu acolho esta tristeza e tento transformá-la em algo bom. Tento aprender uma lição. Tento não repetir os mesmos erros. Me desconecto do mundo virtual para me reconectar a mim mesma e aos meus sentimentos.

Sinta. Escreva. Publique. São as palavras de ordem.

 

 

*Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.