Cosmopolita

Ghosting e a teoria do estepe ou a covardia nas relações contemporâneas

‘Hoje convivemos com uma prática cada vez mais comum, e eu diria, covarde, de se terminar um relacionamento na contemporaneidade: o ghosting.’ Por Edianne Nobre*

“Todo mundo sabe que o
amor só dura 70 dias
ou 32 cópulas”

– Pequeno Dicionário Amoroso, 1997

 

As redes sociais, aplicativos de mensagens e de encontros são hoje, por excelência, espaços de flertes e affairs. O Tinder e outros aplicativos do gênero substituíram os bilhetinhos enviados no bar, os sms nervosos que não tinham confirmação de recebimento, os telefonemas no meio da noite. Hoje, tudo se faz pela internet com frases engraçadinhas e emojis coloridos que dão esse ar de intimidade a qualquer relação virtual. Como garantia vale stalkear os álbuns antigos dele/dela no Facebook e curtir uma foto mais antiga para demonstrar o interesse. Você pode perder madrugadas e boa parte da visão, conversando no escuro do seu quarto, naquela pequena tela do celular com o homem ou a mulher dos seus sonhos. De repente, os dois tracinhos incômodos do Whatsapp nunca mais ficam azuis e o status “ausente” ou “ocupado” passa a integrar o perfil do seu crush no Skype.

A falta de empatia é a doença da pós-modernidade. As amizades e paixões são forjadas em delicadas conexões que não resistem a um like na foto de outra pessoa; estar online e não falar, nem pensar. Para Zygmunt Bauman, o amor é a hipoteca que devemos ao banco e que torna o nosso futuro incerto e inseguro, assim “a tentação de apaixonar-se é grande e poderosa, mas também o é, a tentação de escapar” (Amor líquido, p. 23).

Marcado pela superficialidade, o amor virtual acaba e dá lugar aos memes sarcásticos que denunciam a mágoa ou enfatizam a auto-estima, em uma tentativa frustrada de esconder a dor da rejeição. Sim, porque depois de um relacionamento frustrado, todos nós sofremos um surto de amor próprio, só para esquecer-se dele na próxima foto do Instagram.

Isso me leva a pensar sobre como essas conexões frágeis estão sendo desfeitas tão rapidamente. Hoje convivemos com uma prática cada vez mais comum, e eu diria, covarde, de se terminar um relacionamento na contemporaneidade: o ghosting.

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[Ghost, filme de Jerry Zucker, 1990.]

 

A palavra inglesa é derivada de “ghost”, “fantasma” e não, não tem nada a ver com o romance sobrenatural daquele filme que embalou a adolescência de muita gente. Ghosting não é nada romântico e representa o ato de “desaparecer” como um fantasma, sem dar explicações: simplesmente, a pessoa para de te responder e talvez, te bloqueie em todas as redes e aplicativos, só pra garantir que você não vai querer fazer um exorcismo. Nada mais apropriado, pois o ghosting se refere justamente à intenção de sumir, evaporar, fazer de conta que nunca esteve ali. Roteiro de Hitchcock ou thriller do Stephen King perdem.

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“Ooh sim baby, me ignore com força! Ooh sim, aí mesmo, não me escreva de volta.”

Pior ainda, quando por trás do ghosting há outra intenção: a pessoa do outro lado da tela quer manter um “reserva”, alguém que anseie por uma notificação, que se contente em esperar. Assim como um estepe esquecido no porta-malas do carro: sabemos que está ali, mas esperamos nunca precisar usá-lo.

Como alguém que já esteve nos dois lados da balança, isto é, já pratiquei e já sofri com o ghosting, arrisco a dizer que o grande desafio da humanidade no século XXI é cultivar a empatia perdida nesse cotidiano caótico em que vivemos. Reatar e fortalecer laços, sermos honestos com o outro é fundamental para a nossa sanidade. Pode ter certeza, pior que ouvir um “não gosto de você” é ouvir o silêncio de uma falta de resposta.

 

* Edianne Nobre é contadora de histórias, leonina e filha de Oya. Já morou em algumas cidades do mundo e agora vive em Petrolina. Antes de morrer quer viajar muito mais, pular de pára-quedas e dançar um tango em público.