Leitura Crítica

O trabalhador no mundo do trabalho não tem o que comemorar

No dia do trabalho precisamos fazer uma reflexão densa sobre o significado do mundo do trabalho e suas perspectivas desastrosas para a maioria da população. *Por Moisés Almeida

Foto:Arquivo pessoal

Bem nessa semana em que celebramos o dia primeiro de maio, fiz uma discussão sobre Ética e Trabalho, na disciplina Filosofia e Ética do Curso de Direito na FACAPE. Apresentei alguns dados recentes do mundo do trabalho, dialogando com a crise do capitalismo, da atividade formal e dos impactos que a automação e a robotização têm causado na atividade laboral. Pelos dados apresentados, pouco temos a comemorar no dia do trabalho. Nosso desemprego no último trimestre foi de 12,7%, correspondendo a cerca de 13,4 milhões de pessoas desempregadas. Segundo dados de 2018, a quantidade de trabalhadores informais, ultrapassou o número de registrados oficialmente. Os números estimam cerca de 34,2 milhões de pessoas na informalidade e 33,1 milhão registrados.

De acordo com o IBGE “a taxa de subutilização da força de trabalho foi de 25%, a maior desde 2012. Isso representa um grupo de 28,3 milhões de pessoas que reúne os desocupados, os subocupados com menos de 40 horas semanais e os que estão disponíveis para trabalhar, mas não conseguem procurar emprego por motivos diversos”. Se esses dados representam um quadro sinistro, que determinam desalento de milhões de pessoas, o que mais me preocupa é a velocidade do processo de automação e robotização que vem ocorrendo nos últimos anos. Infelizmente, não está sendo na mesma proporção a quantidade de vagas criadas em decorrência dos postos fechados por causa da substituição do ser pela máquina inteligente. Pesquisa recente do Laboratório de Aprendizado de Máquinas e Finanças e Organizações da Universidade de Brasília (UnB), revelam que até 2026, 54% dos empregos formais poderão ser ocupados por robôs e programas de computador.

Por sua vez, a Consultoria McKinsey, estima que até 2030 15,7 milhões de trabalhadores no Brasil serão afetados pela automação. No mundo, essa estimativa gira em torno de 400 a 800 milhões de pessoas serão afetadas pela automação. Não sou eu quem está apenas preocupado com essa situação. A elite política e econômica global se mostra preocupada com o futuro do trabalho, a partir dos dados que foram divulgados no Fórum Econômico Mundial realizado em 2018 em Davos na Suíça. Pelos números, de 2015 a 2020, o planeta perderá por causa da automação 7 milhões de postos de trabalho, especialmente em funções administrativas e industriais, gerando apenas, nesse mesmo período, 2 milhões de novas vagas.

A automação segundo dados recentes está avassaladora, e terminará atingindo ocupações não só das classes operárias da indústria e do comércio, mas também das classes de serviços, incluindo aí, os contadores, administradores, advogados e médicos. Richard Baldwin, Economista especializado em comércio internacional no Graduate Institute, de Genebra na Suíça, prevê fúria da classe média, com o fenômeno que ele chama de “Globótica”, que significa globalização combinada a novas formas de robótica, de inteligência artificial à tecnologias que facilitam a terceirização de empregos em serviços. Esse grupo será atingindo concorrencialmente pelos robôs: “A concorrência de robôs de software será vista como monstruosamente injusta”, afirmou o economista.

No mundo, já temos um aumento do desemprego estrutural e países que não se prepararam para esse fenômeno, enfrentam grave crise, por exemplo, em seu sistema de previdência e de assistência social. É o desmoronamento do mundo do trabalho, ideia tão cara à modernidade, e que agora, é desfeita em razão da não certeza da inclusão. O que dizer para as pessoas que ainda têm empregos formais, e que poderão em curto prazo serem substituídas? O que dizer para os jovens, que não entraram no mercado de trabalho e poderão não ter certeza da inserção? Como dialogar com a miséria crescente no mundo, devido à concentração de renda e distribuição desigual da riqueza? Só para termos uma ideia do crescente nível de pobreza, o Banco Mundial divulgou em outubro do ano passado, que cerca de 3,4 bilhões de pessoas, vivem na extrema pobreza, lutando para sobreviver e satisfazer suas necessidades básicas. No Brasil existem cerca de 5 milhões de pessoas que vivem com 45 reais por mês.

No dia do trabalho, não temos muito a comemorar. No dia do trabalho precisamos fazer uma reflexão densa sobre o significado do mundo do trabalho e suas perspectivas desastrosas para a maioria da população. No dia do trabalho, precisamos saber que em plena crise econômica Global, os mais ricos, ficaram mais ricos, aumentando, por exemplo, sua renda em 13%. Enquanto não discutirmos a desigualdade social, provocada por esse estado de coisas, o dia do trabalho será apenas um dia qualquer, onde bilhões de pessoas, sequer sentem que este dia é um dia para comemorar.

*Moisés Almeida é Mestre e Doutorando em História do Brasil e professor Assistente da UPE Campus Petrolina e FACAPE.