Entrevistas

Em entrevista ao Ponto Crítico, Flávio Leandro fala do seu trabalho, defende uma revolução cultural e o fortalecimento da democracia.

Ao falar da Democracia foi categórico “todos os assuntos que estão relacionados com a preservação e o fortalecimento da Democracia como um todo eu tô muito dentro”.

12190999_10207074483756745_8380126637772220997_nDe volta a Petrolina para lançamento do seu DVD, “Frutificando”, gravado em Novembro de 2015, na Concha Acústica da cidade, o poeta-cantador Flávio Leandro, pernambucano, natural do município de Bodocó, em companhia do cantor e compositor, Jorge de Altinho, realizaram show na casa Zé Matuto, no sábado, dia 30 de Abril.

Em entrevista concedida ao nosso Blog, Flávio contou um pouco da sua trajetória, sua visão sobre política cultural, identidade nordestina e esperanças para o Brasil diante da atual crise.

Ao falar da Democracia foi categórico “todos os assuntos que estão relacionados com a preservação e o fortalecimento da Democracia como um todo eu tô muito dentro”. Ao tratar de política cultural, defende: “precisamos passar por uma revolução cultural muito forte. E essa revolução só vai ser possível se levarmos pra dentro da escola”.

ENTREVISTA- Por Gilmar Santos

FLAVIO3PC: Flávio, sabendo da tua afetividade com Petrolina, cada retorno deve lhe trazer um novo significado…

Flávio Leandro: É verdade. É interessante, o meu laço espiritual com Petrolina é muito forte. Eu tenho tentado nesses meus dias me desvincular um pouco para não encher muito o saco do povo (risos), mas ao mesmo tempo está gozando dessa colheita de frutos que Petrolina tem me proporcionado. Esse intercâmbio nasceu nos anos 90, onde tive uma aproximação muito forte com os artistas e a com a cena cultural da cidade, mas não pude impor o meu ritmo naquele momento, e agora já de 2008 pra cá eu tive oportunidade de dar um encaminhamento à minha música dentro da realidade do Vale do São Francisco, a partir de Petrolina. E isso tudo tem sido muito vantajoso porque Petrolina é uma grande vitrine hoje no Nordeste e, quiçá, no Brasil, então aproveitando muito essa canja eu tenho feito o meu material de divulgação a partir da gravação do DVD Frutificando, através dessa terra , da qual eu tenho levado uma mensagem muito boa para o resto do mundo. Eu digo pro resto do mundo porque a nossa música ela consegue hoje, através das redes sociais , caminhar pro resto do mundo todo, graças a Deus. E eu estou muito feliz porque em 7 de Novembro (2015) a gente gravou com um sucesso enorme, de público, de crítica, e hoje a gente retorna pra dar a satisfação final que é entregar ao povo de Petrolina aquilo que ele abraçou que é o nosso DVD Frutificando. Então é uma alegria imensa está hoje junto com Jorge de Altinho, que é também essa pessoa muito ligada a Petrolina, através da música, e é uma felicidade que procuro mostrar sempre com o pé no chão e tendo o povo como referência maior.

PC: Travessuras é o teu primeiro trabalho, disco de 1998, qual é o elemento forte que você traz nele?

Flávio Leandro: É engraçado, porque quando falo da ligação espiritual com Petrolina, isso tem haver com os anos que morei por aqui, nos anos de 96, 97 e 98, período em que gravei esse meu primeiro disco. E esse disco teve o mérito de ficar muito esquecido (risos). Nele eu trago muito a minha ingenuidade, minha imaturidade. Conversando certa vez com amigo Santana [cantor e compositor], ele disse “não se preocupe não, poeta, esse com certeza vai ser o seu melhor primeiro CD (risos), porque não tem outro não”. A gente não tinha acesso a informação do estúdio, da produção como a gente tem hoje. Mas é isso demos o primeiro passo, e é preciso o primeiro passo para se poder caminhar.

PC: Existe uma preocupação no teu trabalho em, além de resgatar e preservar as raízes nordestinas, apresentar uma crítica social, a preocupação com os problemas do povo. Na música Brasilidade, que dá título ao teu segundo CD, você aponta para isso, em “MSN” [Disco “Cheiro de Nós”, 2011] você trata da crise da bolsa de valores, sem perder de vista o elemento da identidade nordestina. O que significa para você colocar essa reflexão dentro da tua música, principalmente, nesse momento delicado da vida nacional?

Flávio Leandro: Eu acho que o artista e, principalmente, o artista que trabalha com música, já que essa arte tem um poder de persuasão e convencimento muito forte, essa pessoa tem que ser um fotógrafo muito veemente do seu momento. E eu não consigo conceber que a gente grave um trabalho com doze ou quinze faixas, e dedicar essas faixas a um tema só. É claro que trato nas minhas músicas do tema do amor, do gostar, do querer, porque é do ser humano, mas aí eu aproveito o momento fazer uma reflexão de cunho social, uma reflexão de cunho social-ambiental, procuro contemplar também a questão da espiritualidade, a crítica satírica a determinados temas, como fiz na música “Pulíça” [Disco “Cheiro de Nós”, 2011], em alusão a Reforma Ortográfica. E nisso dá pra gente contemplar muita coisa, até de Biologia, se você quiser você fala (risos).

PC: O que o artista Flávio Leandro diz sobre o atual momento político do país?

Flávio Leandro: Com certeza, pra mim, esse tem sido o momento mais delicado de toda a minha existência. Hoje estou com 46 anos de idade e posso dizer que a gente viveu vários momentos, mas temos uma democracia ainda muito embrionária, muito pequena. Eu vivi num tempo onde eu era iludido, como menino, com aquela coisa do desfile, eu achava tudo muito bonito, me fantasiar, representar minha escola, aquela garra que a gente desprendia…Isso foi até o meu primeiro ano, do segundo grau [atual Ensino Médio]. Eu ainda desfilando por obrigação da Ditadura [Militar] no país. O início da minha adolescência coincidiu com o fim da Ditadura. E todos os assuntos que estão relacionados com a preservação e o fortalecimento da Democracia como um todo eu tô muito dentro desse contexto. É claro que me preocupo com a questão do combate a corrupção e isso é uma coisa que deve está muito presente nas nossas vidas, porque ela passa por todas as camadas da sociedade. Mas é claro que devemos fazer tudo isso sem perder o foco principal que é a democracia. Porque é o campo de debate verdadeiro, de qualquer que seja a ala, de esquerda ou de direita, para que a gente chegue a uma resposta de consenso coletivo para a sociedade brasileira como um todo. E claro que dentro de uma democracia a gente percebe que é possível você falar várias coisas, como tenho visto algumas aberrações sendo faladas e ditas. Então eu fico triste quando percebo que a gente pode se desvirtuar do caminho da democracia. Eu quero que a gente saia no final de tudo isso, vitorioso, com a bandeira da democracia muito bem erguida e levantada, isso com a unidade de todos os brasileiros.

PC: Em se tratando de Democracia, a Política Cultural e, mais especificamente, no teu caso e de muitos artistas forrozeiros, a Política do São João, está democrática?

Flávio Leandro: Quando falo que a Democracia é embrionária, a Política Cultural é muito mais embrionária ainda. Precisamos passar por uma revolução cultural muito forte. E essa revolução só vai ser possível se levarmos pra dentro da escola, e a partir dela podermos enxergar todas as nuances da nossa cultura, como um todo, e daí levarmos essa cultura pra rua. Porque quando falamos em cultura, muitas vezes, queremos excluir os processos massivos e isso, infelizmente, não podemos, porque isso é cultura também, se ela é boa ou se é ruim é outro assunto. Mas é a partir da escola que devemos fortalecer essas bases e protegermos principalmente as culturas de raiz, as matrizes culturais, porque junto com essa proteção a gente vai está protegendo, com certeza, toda a cadeia produtiva que gira em torno dessas matrizes, é essa a minha preocupação maior quando defendo o forró tradicional, e nisso estou defendo a bandeira do emprego e da renda, porque é a partir do fortalecimento dessa causa que estou defendo o produtor de chapéu, da sandália de couro, do gibão, da cangica, da pamonha, do quentão, da zabumba, do triângulo, é esse o meu discurso de proteção, em defesa dessa matriz.

PC: Nesse caso a presença de ritmos como o sertanejo, o axé music, durante as festas juninas, inviabilizam o fortalecimento dessa tradição?

Flávio Leandro: Exatamente. Porque quanto mais eu tiro de dentro dessa minha realidade, mais eu vou está desempregando. Eu acho que existe espaço pra todo mundo, é preciso que se aja de forma mais justa, no sentido de cada um defender na sua localização as suas matrizes. Mas isso a gente só vai conseguir quando setorizarmos dentro de cada região, de cada comunidade as suas matrizes.

PC: Quais são as esperanças do poeta-cantador para o Brasil e, particularmente, para o Nordeste?

Flávio Leandro: Eu acredito demais no Brasil. Esse país é tão diverso, tão plural, e tão forte que, apesar do sofrimento do povo no dia-a-dia, a gente ainda percebe uma ponta de esperança, um brilho no olho, tão forte nessas pessoas… E é de posse dessa chama, desse brilho nos olhos, que eu tento traçar minha caminhada e dar minha lição diária, da minha própria sobrevivência, e através dessa minha vontade passar pra pessoas esse brilho, essa garra, essa determinação de querer transformar, de mudar. Não é possível muito rapidamente, mas acredito que a gente já melhorou bastante. Eu acredito muito no meu país, e acho importante que cada um, dentro das suas comunidades, comecem a se fortalecer, valorizando o seu bairro, a sua cidade, o seu estado, e daí fortalecer o Brasil como um todo. É um sistema muito forte, de várias e várias peças, onde cada um tem que está trabalhando, de forma muito simultânea, para que a gente consiga atingir os objetivos, e tenho certeza absoluta que daremos certo, e muito, não sei exatamente quando, mas acredito demais no meu país.