Entrevistas

29 anos sem Paulo Freire

Em entrevista exclusiva professor e jornalista Jota Menezes lembra a importância do autor para educação no Brasil e no Mundo.

paulo_freire02 de maio, é o aniversário de morte do pernambucano de Paulo Freire (Recife, 19 de setembro de 1921 — São Paulo, 2 de maio de 1997), patrono da educação brasileira. Educador, pedagogista e filósofo brasileiro. É considerado um dos pensadores mais notáveis na história da Pedagogia mundial. Foi o brasileiro mais homenageado da história: ganhou 29 títulos de Doutor Honoris Causa de universidades da Europa e América e o prêmio da UNESCO de Educação pela Paz em 1986, entre outros.

Nosso blog ouviu o professor de História e Jornalista Jota Menezes que destacou a importância de Paulo Freire para a educação no Brasil.543429_4669136466250_2079565242_n

PC – O que representou Paulo Freire para a educação brasileira?

JM – Paulo Freire esse Pernambucano, que construiu um trabalho  relevante  muito conhecido na educação eu diria não só do Brasil, mas do mundo, deixando um legado inestimável do ato de educar, numa perspectiva  inclusiva, transformadora e libertadora num mundo marcado pela hegemonia  e voracidade do capital. Paulo Freire é considerado hoje o educador, o intelectual brasileiro mais bem avaliado no mundo quando o assunto é o saber dito “formal”, negado às minorias. O trabalho de Paulo Freire especialmente nos anos 1960 e 70 voltados para a educação do oprimido principalmente, foi de suma importância para a compreensão de como é a educação nos países considerados periféricos, os países de terceiro mundo, dominados por oligarquias, marcados pelo colonialismo, pelo patrimonialismo, por uma cultura injusta latifundiária, centralizadora, autoritária, monopolista e alienante. Quando ele opinava, sugeria uma educação alternativa, não uma educação tradicionalista voltada para as classes média alta e para as elites, mas uma educação que pudesse se adaptar as condições e a realidade das comunidades do Brasil e da América Latina. Não confundir com um projeto improvisado, não se trata disso. O trabalho de Freire é consistente, tem método, estrutura, conceito e aponta resultados plausíveis e mensuráveis.  O pensamento de Paulo Freire se expandiu de tal forma no mundo, que ganhou contornos inimagináveis, principalmente no Brasil. Imagine a alegria de um adulto dos rincões do Brasil que se dizia cego por não saber ler e escrever. Com o método Paulo Freie ele aprende mais que a função técnica, ele descobre como interpretar o que se lê, deixa de ser o analfabeto funcional. Freire deu o “arco e a flecha”. Autônomo, esse caboclo dos sertões do Brasil aprendeu o caminho da libertação e passou a ver o mundo numa outra ótica, não mais olhando para o chão, mas para o horizonte. O trabalho dele foi difundido em praticamente todos os países da América Latina onde é muito conhecido e estimado. Na Europa, principalmente na Alemanha, França e na Inglaterra é muito estudado. Recentemente saiu nos Estados Unidos, um ranking entre as obras mais publicadas voltadas para a educação no mundo e lá aparecem os livros de Paulo Freire. Então eu reputo que a obra desse autor brasileiro, tem uma representação importantíssima no que diz respeito a uma visão diferenciada, alternativa e clara da educação. Ele quebrou paradoxos e mostrou que há “uma outra forma de prover o conhecimento”, diferenciada dos métodos tradicionalistas. A visão neoliberal faz críticas ferrenhas à metodologia de Paulo Freire, principalmente em relação ao que denominam de visão “irreal marxista”. Tenta-se estereotipar e desqualificar o educador e sua obra, contudo, observa que na obra de Freire Havia um equívoco muito grande do ponto de vista estratégico de se pensar a educação de forma igual, sem considerar as especificidades regionais, culturais, identitárias, simbólicas.  Imagine, por exemplo, que um aluno do ensino fundamental daqui do sertão muitas vezes recebia um livro do sul ou do sudeste do Brasil, com uma visão que destoava  da realidade local, então havia aí uma contradição no que diz respeito a interpretação dessa realidade. E Paulo Freire conseguiu mostrar essa realidade, despertou nas sociedades e comunidades que existiam outros mundos, outras formas de saber, que não apenas aquele ditado pela norma e “padrões cultos” tradicionalistas.  Era preciso estudar essas  realidades singulares , adaptadas as condições locais e aprender com isso. A obra dele é de suma importância dentro dessa nova visão de mundo, com um caráter mais humanizado. A educação como prática da liberdade, Pedagogia do Oprimido, Extensão ou Comunicação, Por uma Pedagogia da Pergunta, Cartas a Cristina, o autor sugere uma educação promotora da autonomia.  Com Freire, aprende-se que educar é importante não apenas do ponto de vista de você ser instruído, de um saber técnico, mas, sobretudo você olhar a educação para o desenvolvimento humano que não significa só pensar só em resultados materiais, mas sobretudo de uma elevação filosófica, sociológica, social e do “bem viver” como apregoam comunidades indígenas equatorianas. É não ter vergonha, por exemplo, de falar que educação como um ato crítico, de humildade, alegria, dialógico, encontro saudável, sem ser submisso, de insurgência, de inteligência coletiva para o bem comum e  de amor.

PC- Paulo Freire tinha uma frase que dizia: “Não é possível pensar em linguagem sem ideologia e sem poder”. Que leitura você faz dessa frase?

JM – Muitas vezes, no senso comum, pensa-se que o poder é algo ruim, quando a gente sabe que o protagonismo é uma necessidade e quando você junta o protagonismo que é o poder, à questão ideológica, que é a ideia do bem comum, então é preciso que se tenha a ideia do poder, mas um poder coletivo, plural e que possa beneficiar a muitos e não o que a gente conhece hoje, o poder hegemônico predador, altamente competitivo, consumidor voraz, onde há uma desigualdade muito grande, que não é por acaso, mas é criada pelo sistema capitalista que coloca de um lado aqueles que tem muito e são poucos e do outro lado, aqueles que são muitos e tem muito pouco. Então há uma contradição histórica  no mundo voltada para esse sentido da meritocracia que diz: você é rico porque você fez por onde, você é merecedor de sua riqueza e  você  é pobre, porque você não lutou muito, então você é pobre. Esse conceito de meritocracia é totalmente equivocado, porque para você ser bem sucedido ou não, há toda uma complexidade, não é tão simplista assim. Eu diria que é uma questão mais de oportunidade, de ponto de vista, da história da pessoa, de sua trajetória sociocultural, econômica, da forma como foi educada, de fatores psicológicos e até biológicos. Aferir mérito, é algo que não pode ser refletido por argumentos rasos, principalmente em países de baixíssima intensidade democrática como o Brasil, com instituições tão frágeis.  Então quando Paulo Freire remete a questão ideológica, ele questiona o sistema de coisas. Por que as coisas são como são? E deixa essa interrogação para que a gente possa refletir sobre a desigualdade do mundo. Ele faz isso por meio dos discursos que permeiam a multidimensionalidade do fazer educacional. Nós temos no Brasil uma realidade histórica, desigual que começa lá com a distribuição das Capitanias Hereditária, quando a Coroa Portuguesa distribui as terras do Brasil para meia dúzia de pessoas de um clã. E isso continuou ao longo da nossa história. Vejamos o caso dos Garcia D’ávila e sua emblemática Casa da Torre. Temos por exemplo, uma injustiça muito grande com o latifúndio, a terra no Brasil e essa lógica se espraiou para outros nichos econômicos como por exemplo os meios de comunicação. Veja os espaços políticos no Brasil é concentrada e passa de forma ininterrupta de geração a geração há séculos. São as mesmas famílias perpetuando o mandonismo local, monopolizando as riquezas e perpetrando as injustiças.  Nós temos o problema do negro, a cor negra que sempre foi a “cor da negação” do Brasil, preconceito racial, discriminação, pobreza, desigualdade e nós temos a corrupção, que é um mal disseminado na sociedade brasileira, como um câncer, uma gangrena.  Nós estamos acompanhando isso agora. Essa herança maldita atrasa muito o desenvolvimento do nosso país e principalmente atrapalha o desenvolvimento social e da democracia. Quando Paulo Freire fala da questão do poder e da ideologia ele remete a um outro tipo de poder que se transforma em justiça social, por meio da educação que é um desses caminhos em que ele remete a necessidade de que o brasileiro precisa aprender a pensar, a ter senso crítico, insurgir-se e exigir a mudança. Você só tem noção de sua condição ideológica a partir do momento em que você tem conhecimento, tem saber e é através desse saber que você pode construir a cidadania e a partir dessa cidadania, galgar, reivindicar espaços mais democráticos na sociedade.

PC – Paulo Freire via a educação como uma opção libertadora. A educação no Brasil como está posta hoje, ela liberta?

JM – Não. Eu diria que não. Infelizmente estamos ainda no campo da utopia. A utopia é necessária, pois ela implica numa esperança. A educação libertadora é o sonho maior, mas ainda estamos longe disso. O Brasil tem um problema muito sério com a educação desde os primórdios. Porque, nós tivemos a Escola Formal que só chegou no Brasil depois de Dom Pedro II, a universidade só chegou ao Brasil também muito recentemente na transição do século XIX para o século XX e a educação no Brasil sempre foi uma espécie de “aparelho ideológico do Estado”, ou seja, sempre foi usada como mecanismo político e nós sabemos muito bem que as lideranças, muitas vezes políticas, especialmente de regiões mais atrasadas, elas se utilizam muito do discurso da educação para angariar seus interesses, muitas vezes interesses escusos. Veja o que ocorre no estado de Alagoas. Uma lei municipal proíbe que o professor opine politicamente. O que é isso? É uma visão claramente fascista, pois inibe a liberdade de expressão, o direito do livre arbítrio.  A educação embora tenha essa importância fundamental para o desenvolvimento de qualquer país, é a mola propulsora do desenvolvimento e da justiça social, pois amplia as visões de mundo, estimula a criticidade, muitas e muitas vezes ela é utilizada como meio de enriquecimento para muitos, para locupletar patrimônios. No Brasil nós temos uma escola  ainda deficiente, sem base  estrutura curricular  bem definida, e quando eu falo disso, não me refiro apenas a escola pública, é preciso que se diga, mas nós temos no Brasil uma lógica atual em que a educação se transformou num processo  de mercantilização, e aí você pode notar o número de faculdades que surgem a toda hora, muitas delas funcionando em cubículos e além disso, se prepara o aluno hoje, inclusive em escolas tradicionais, para passar no vestibular, mas desprezando o viés humanístico. O mercado é o motivo maior da educação…Nos outdoors antes e depois dos exames vestibulares, você vê as escolas dizendo a quantidade de alunos aprovados, num claro recado competitivo, egoísta e individualista ao aluno e futuro cidadão: “o que está em jogo é levar vantagem em tudo, como dizia a “Lei de Gerson” ou a cultura da razão cínica”.  O sujeito é treinado para anular o outro, para ser melhor do que o outro e não para compartilhar a vida, o mundo e seus recursos. Há toda uma visão voltada para a compensação meritocrática. E aí ficamos a nos perguntar muitas vezes: para que se estuda?  Por que o estudo e o conhecimento são importantes não apenas como uma maneira de ser bem sucedido, de se desenvolver na vida, mas sobretudo de uma maneira de se pensar na melhoria das condições de vida coletiva e a educação ela serve sobretudo para que você possa também brigar por dignidade, igualdade, partilha e para que seu semelhante, seu vizinho possa também se desenvolver. Então eu penso que a educação no Brasil ainda é vista em terceiro plano, e você nota isso pelas condições dos professores, claro que já houve uma melhora considerável em termos de investimento em material escolar para os mais pobres, mas nós temos ainda muita dificuldade, principalmente nos salários que o professor recebe por mês, o que é uma vergonha, um professor ganhar em média R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais) é muito pouco, não tem condições nem de investir em livros, o professor não passa por processos regulares de formação, com algumas exceções. Então esse professor precisa ser melhor preparado e precisa sobretudo ter melhores condições de vida como por exemplo, aconteceu no Japão em que depois da Segunda Guerra Mundial o imperador disse: entre todos os profissionais aquele que deve ganhar melhor é o professor, por que é ele que forma, ele que trabalha na base para o desenvolvimento de um país, então nós temos gargalos ainda na educação brasileira muito sérios a começar pelos investimentos, já houve um aumento considerável na cota do PIB para a educação e já houve uma melhoria muito grande, mas é preciso pensar numa educação que esteja realmente voltada para as necessidades do tempo em que nós estamos vivendo no século XXI é preciso toda uma reavaliação do processo de educação, por que infelizmente o modelo que nós temos de educação formal ainda é do século XIX, então é preciso que haja uma mudança consubstancial no sentido de criar alternativas de interpretar qual é a necessidade do nosso aluno hoje, mas além disso é preciso também focar na preparação do professor e sobretudo também na questão salarial, quando eu falo de formação eu estou dizendo que o professor deve sim fazer mestrado, deve sim fazer doutorado, e não é apenas o professor do ensino universitário não, o Brasil quando pensa em cursos superior só pensa que é o que vai dar aula na universidade, eu penso que o professor do ensino fundamental deve ser preparado e ter mestrado inclusive, por que o trabalho precisa começar a ser bem feito já a partir da base  e ter continuidade até a universidade, passando pelo graduação, pós graduação, mestrado, pelo doutorado e pelo pós doutorado. Porque o ensino fundamental e médio não podem contar com professores com outros níveis de graduação? Apenas a universidade? Alguém pode achar que isso é utopia, eu penso que não, mas sei que o estado brasileiro precisava redesenhar todo o processo educacional e essa reavaliação passa também pela valorização de quem está lá e só tem a graduação. Esses é que seguraram a educação básica com os prós e contras, então é justo investir primeiro nestes. Ressalto ainda que nem sempre o professor/Doutor é o que sabe tudo. Há profissionais graduados da educação muito capazes que dão lições em doutores, principalmente na didática. O que estou tentando dizer é que é preciso encontrar esse equilíbrio, “bebendo da fonte” de quem possa contribuir, respeitado os saberem de outréns. Eu acredito que a mudança e o desenvolvimento de um país tem de passar obrigatoriamente por uma educação de qualidade.

Jota Menezes é professor de História e Jornalista.