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A eleição na Câmara, o PT e o impeachment. E agora?

“É por isso que, ao contrário do que parece ser o sentimento de parte da esquerda que apalavrou seu apoio à candidatura de Baleia Rossi, não faz nenhum sentido abandonar esta luta agora, muito pelo contrário. O que não fazia sentido era achar que para lutar pelo impeachment a esquerda deveria votar em Baleia Rossi”. *Por Patrick Campos

Foto: Ponto Crítico

Na noite desta segunda-feira (1º de fevereiro) aconteceu a eleição para as presidências da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. O resultado foi que os dois candidatos apoiados por Bolsonaro foram eleitos, ambos no primeiro turno. No Senado, por 57 votos a 21, venceu Rodrigo Pacheco (DEM) e na Câmara ganhou Arthur Lira (PP), que obteve 302 votos, cerca de cem votos a mais do que a soma da votação obtida por todos os outros oito candidatos.

Apesar da surpresa expressa por muitos com a decisão no primeiro turno e a vitória dos dois candidatos apoiados por Bolsonaro, esse resultado não foi um raio em céu azul. O governo Bolsonaro atuou intensamente para eleger seus candidatos, seja por meio da compra de votos via liberação de emendas parlamentares, seja diretamente por meio da oferta de cargos no governo Federal.

Mas essa ação organizada do bolsonarismo foi potencializada por um elemento: a unidade existente entre as diversas frações da direita quando o assunto é impor derrotas a esquerda e principalmente ao PT. Evidente que a maioria fisiológica que compõe a Câmara dos Deputados e o Senado Federal embarcariam, mais cedo ou mais tarde, nas candidaturas que oferecessem mais, no entanto, a ausência de uma candidatura e de um bloco de esquerda facilitou a vida daqueles que queriam valorizar seu passe numa disputa que se consolidou entre duas candidaturas de direita.

É nesse sentido que os partidos de esquerda, e o PT em particular, precisam fazer uma importante avaliação da tática adotada. Com relação ao PT, a bancada do partido na Câmara decidiu por uma maioria de 27 a 23, apoiar a candidatura do candidato do MDB, Baleia Rossi, e não apresentar ou construir uma candidatura própria ou com os demais partidos de esquerda.

Essa decisão esteve sustentada, principalmente, no argumento de que a esquerda deveria entregar seus votos ao candidato com maior viabilidade de derrotar o candidato de Bolsonaro. Dessa forma, o espantalho da candidatura bolsonarista foi empurrando o conjunto dos partidos de esquerda para as cordas, numa condição defensiva em que questões como o auxílio emergencial ou o impeachment de Bolsonaro não foram assumidas pela candidatura apoiada.

Vale lembrar que Baleia Rossi (MDB) era não apenas o candidato apoiado pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), que ficou sentado em cima de mais de sessenta pedidos de impeachment, mas também um apadrinhado político de Michel Temer e uma das figuras que teve importante atuação para que ocorresse o golpe de 2016. Ou seja, um golpista de carteirinha que também contribuiu para a eleição de Bolsonaro em 2018 e na aprovação das reformas trabalhista e da previdência.

Não obstante tudo isso, prevaleceu entre a maioria dos partidos de oposição a crença de que não tinha outro jeito que não apoiar Baleia Rossi, seja para enfrentar o candidato de Bolsonaro, seja para obter uma melhor condição na ocupação de espaços na mesa diretora e nas comissões da Câmara.

Sustentou também este discurso, uma análise matemática do tamanho das bancadas dos partidos de oposição. Somados, PT, PCdoB e PSOL possuem cerca de 72 deputados. Se acrescentadas as bancadas do PSB, PDT e REDE, esse número chega em 129. Para eleger o presidente da Câmara no primeiro turno, caso todos os parlamentares estejam presentes, são necessários 257 votos. Em diversos momentos esta conta de padaria, com quase nenhuma política, foi utilizada para justificar que os partidos de esquerda não deveriam apresentar uma candidatura própria.

Pesou também neste lado da balança um argumento, no mínimo esquisito, de que caso toda a esquerda não se comprometesse com a candidatura de Baleia Rossi, ocorreria um “efeito manada” em que parte dos deputados de direita migrariam para a candidatura de Lira, pois veriam nele mais chances de vitória.

Esse argumento foi intensamente repetido, por exemplo, pela deputada Sâmia Bonfim, daquela que se reivindicada como uma das mais radicais correntes da esquerda do PSOL, o MES. Por este raciocínio, a direita golpista apenas conseguiria manter o apoio em seu próprio candidato, se a esquerda que ela age diariamente para derrotar, apalavrasse integralmente seu apoio. Convenhamos que é, no mínimo, curioso.

Acontece que estas análises, baseadas em lógicas extremamente duvidosas e com imensas fragilidades do ponto de vista político, prevaleceram e obtiveram como resultado a vitória do candidato de Bolsonaro no 1º turno, com o dobro de votos de Baleia Rossi, que obteve 145 votos.

Ou seja, a tática avestruz que foi adotada por quase toda a esquerda parlamentar não só contribuiu para que a eleição se resolvesse no primeiro turno em favor da candidatura bolsonarista, como fez com que a pauta do impeachment, do auxílio emergencial, da vacinação e do emprego ficassem extremamente secundarizadas diante da discussão sobre a ocupação de espaços na mesa diretora.

Pior que isso, enquanto a situação sanitária, econômica e social do país pirou ainda mais e que setores populares começaram a se mobilizar em defesa do impeachment, a tática adotada na disputa pela presidência da Câmara e do Senado foi totalmente na contramão, pois estava baseada no apoio a candidatos que eram contra o impeachment.

De tal forma que, ao invés de acumular forças, a tática adotada na disputa da Câmara e do Senado contribuiu, direta e indiretamente, para uma diminuição do papel da esquerda no parlamento e também para a diminuição do potencial das mobilizações que vinham num crescente desde o começo de janeiro.

É por isso que não podemos passar pano nem relativizar o que aconteceu. A tática adotada foi errada e sua aplicação em outras lutas tende a promover novas e piores derrotas. E talvez o ponto mais sensível sobre os desdobramentos dessa tática, agora, seja a discussão sobre os rumos da luta pelo fim do governo Bolsonaro.

Está evidente que cada dia a mais que Bolsonaro, seu governo e suas políticas continuam, pioram as condições de vida da maioria do povo, são ameaçadas as liberdades democráticas, perde a soberania nacional, o meio ambiente e a saúde pública. Ou seja, é imperativo que este governo que nunca deveria ter começado, termine o mais rápido possível e não somente em 2022.

No entanto, como ficam as condições do impeachment com o resultado da eleição para a Câmara e o Senado? Ora, os deputados e senadores são exatamente os mesmos. As mesmas pessoas que elegeram Lira e Pacheco são os que votarão qualquer pedido de impeachment. Ou seja, do ponto de vista da luta pelo impeachment, as condições internas da Câmara e do Senado continuam muito parecidas.

É por isso que, ao contrário do que parece ser o sentimento de parte da esquerda que apalavrou seu apoio à candidatura de Baleia Rossi, não faz nenhum sentido abandonar esta luta agora, muito pelo contrário. O que não fazia sentido era achar que para lutar pelo impeachment a esquerda deveria votar em Baleia Rossi.

A possibilidade do impeachment nunca esteve restrita as condições mais ou menos favoráveis na Câmara, pois estas sempre foram e continuam sendo muito desfavoráveis. A possibilidade do impeachment e do fim do governo Bolsonaro antes de 2022 está diretamente ligada as condições de luta e mobilização fora do parlamento.

É preciso ter nítido que, até para termos uma vitória em 2022 a situação precisa ser de muita luta e mobilização agora, em 2021. As pessoas precisam ser convencidas de que vai caber a elas tirar Bolsonaro, uma vez que isso não acontecerá pelas mãos dos deputados e senadores e que, tampouco, ele cairá de maduro.

Mas para isso acontecer, é preciso que exista um processo de luta permanente pelo fim do governo e não apenas uma atuação parlamentar. Nesse sentido a palavra de ordem do impeachment deve seguir firme e junto a ela uma mudança no conjunto da linha política que vem guiando a maioria dos partidos de esquerda e a maioria do PT ao longo do último período.

Evidente que essa mudança não vai acontecer espontaneamente, afinal de contas, se mesmo com o golpe, com a prisão, condenação e interdição de Lula e com a eleição de Bolsonaro seguiu prevalecendo a mesma estratégia e as mesmas ilusões, por exemplo, de constituição de frentes amplas com golpistas, não deve ser a derrota de Baleia Rossi que vai promover essa mudança.

Mas considerando que ela é imprescindível para a classe trabalhadora brasileira vencer os desafios que estão colocados, devemos seguir agindo para que ela ocorra o mais rápido possível. Por isso, é preciso continuar lutando por uma outra estratégia para o PT, disputando as posições do partido e compreendendo que quanto maior o desafio, maior deve ser nossa disposição de vencer, na certeza permanente de que dias melhores virão, e que nem esses deixarão de ser de muita luta.

*Patrick Campos, Advogado, membro do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores