Cosmopolita

Precisamos falar sobre a morte

‘Então, eu me pergunto, por que cargas d’água vivemos tão mal? Por que as pessoas dão mais valor aos bens materiais e ao dinheiro do que aos momentos e às relações pessoais? Por que superestimamos esse corpo-sepulcro, como dizia Platão, que nos aprisiona?’. Por Edianne Nobre

Por Edianne Nobre*

É apenas isto: se você vai ser humano,
tem um monte de coisas no pacote.
Olhos, um coração, dias e vida.
Mas são os momentos que iluminam tudo.
O tempo que você não nota que está passando…
é isso que faz o resto valer.

 – Morte, Neil Gaiman.

Pouca coisa amedronta tanto o ser humano como a iminência da morte. <<A morte surda caminha ao nosso lado e não sabemos em que esquina ela vai nos beijar>>, cantava Raul Seixas. Vez por outra, eu tenho esses pequenos ataques de pânico que me fazem pensar em uma morte imediata, quase sempre dolorosa. Tanto que não sei se tenho medo propriamente de morrer ou de sentir dor. Quiçá, os dois. Há um apego tão irremediável a esse mundo que conhecemos (um mundo entre vários) que lutamos cotidianamente pela sobrevivência, mesmo se ela representa a extinção do outro.

Hoje recordei que cinco anos atrás, eu perdi minha avó, uma das pessoas mais importantes da minha vida. Até hoje guardo aqueles olhos azuis bem no fundo do meu peito, guardo as canções de ninar que me embalaram, as histórias antigas que ela contava, o rosto inconfundível da repreensão cuidadosa, as lágrimas de saudade de um passado perfeito, idealizado. Minha avó será para sempre uma lembrança bonita e forte, como a pele alva que ela tinha, como o sobrenome que ela carregava.

Minha avó morreu sozinha. Todos nós morremos sozinhos, não importa de quantas pessoas estejamos acompanhados. <<A morte significa que assino uma renúncia a qualquer indenização>>**. O fato é que o mundo continuou depois que minha avó se foi. O mundo continuará ainda que eu, você ou todos os seres humanos partam.

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[Imagem: Morte, o grande momento da vida de Neil Gaiman.]

Quando eu penso que posso morrer a qualquer instante, a angústia maior que tenho é a de não ter vivido tudo o que eu gostaria de viver, de não passar mais tempo com minha família e meus amigos, de não ter amado mais. <<Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida>>, disse o poeta Pablo Neruda. Me angustia que eu tenha passado as noites em claro trabalhando; que eu tenha dormido pouco, comido mal ou chorado por alguém que não valia a pena; ou ainda, lamentando o dinheiro mal gasto, a falta de uma poupança ou a roupa nova que comprei mas não tinha condições de bancar. Me angustia não ter viajado mais, beijado mais, sorrido mais, <<ter visto o sol nascer>> e todos esses clichés da contemporaneidade. A avó do Saramago dizia que << O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!>>. Minha avó dizia que viver era uma dádiva dos céus e que devíamos ser gratos por cada momento. Nossas avós eram mais sábias que nós, isso é certo.

Então, eu me pergunto, por que cargas d’água vivemos tão mal? Por que as pessoas dão mais valor aos bens materiais e ao dinheiro do que aos momentos e às relações pessoais? Por que superestimamos esse corpo-sepulcro, como dizia Platão, que nos aprisiona?

Não, eu não pretendo responder essas perguntas, mas quando as profiro, busco entender a mim mesma e a essa angústia que sinto, que não é só minha, eu sei. Intento compreender a ganância das pessoas (será possível?!), os jogos que se fazem em nome do dinheiro e do poder, quando nem o corpo podemos levar quando partimos; quando não sabemos o que nos espera depois daqui e, na melhor das hipóteses, talvez não haja mesmo nada o que esperar. Só o vazio escuro e nada mais (o mesmo vazio escuro de antes de nosso nascimento, ou alguém se lembra de algo antes de tomar consciência da vida?).

Pensar sobre a morte me faz dar mais valor a vida e não deixar nada para depois. Por anos, eu tive horror ao termo Carpe diem, que todos falam, sem realmente se ater ao significado dado por Horácio: <<Enquanto estamos falando, terá fugido o tempo invejoso; colhe o dia, quanto menos confia no de amanhã>>. Hoje, eu entendo que colher o dia é, talvez, a missão de nossas vidas. Carpe diem representa, não a constatação de uma morte física iminente, mas a morte das certezas e convicções sobre o amanhã. Assim, faço minhas, as palavras da Frida Kahlo: <<Se existe vida após a morte, não me esperem, porque não vou>>.

 

** Frase de Rose Walker no livro Entes queridos do Neil Gaiman. Gaiman é o criador da saga dos Perpétuos (Sandman), no qual, uma das personagens mais velhas é a Morte (Death.

 

* Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.