Cosmopolita

Ontem eu fui assassinada, mas hoje eu ainda luto.

‘Ontem eu morri no corpo de dezenas de outras mulheres que são estupradas, espancadas, dadas de comer aos cachorros’. Edianne Nobre

Ontem eu fui assassinada. Arrebentaram meu crânio com uma furadeira. Os golpes atingiram não só a cabeça, mas meus braços, meus seios, meu estômago. Jorraram de mim lágrimas e sangue. «Então eu vou te cortar a cabeça, Maria  Chiquinha / Que cocê vai fazer com o resto, Genaro, meu bem? / Que cocê vai fazer com o resto? / O resto? Pode deixar que eu aproveito» [1]

Ontem eu fui perseguida na rua por dois homens. Eles assoviavam e me diziam: «Gostosa! Quero te provar, cozida a vapor, quero te provar. Sem medo e sem amor, quero te provar» [2].

Ontem ejacularam na minha cara em um ônibus lotado enquanto eu repousava meu corpo cansado de uma longa jornada de trabalho. Ele, um desconhecido, foi para casa e, eu, chorei o leite que escorria na minha face. Contra a vontade. «Se fosse mulher feia tava tudo certo, mulher bonita mexe com meu coração» [3]

Ontem me mataram numa maca de hospital. Me abriram as pernas para tirar o feto que eu não podia ter, que eu não queria ter. Me abriram com violência. “Não grita! Quando foi pra fazer não doeu não é?!”. «Tudo que é perfeito a gente pega pelo braço, joga ela no meio, mete em cima, mete embaixo» [4]

Ontem meus “amigos” me embebedaram e me estupraram repetidamente. Eu, inconsciente, sentia as estocadas, como em um sonho ruim. Não sabia direito o que tinha acontecido, mas depois eu vi. Eles filmaram tudo e colocaram na internet. «Joga pedra na Geni, ela é feita pra apanhar, ela é boa de cuspir, ela dá pra qualquer um, maldita Geni». [5]

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil/ Blogueiras feministas

Ontem meu namorado me espancou porque eu estava trocando mensagens de trabalho pelo W com alguém, e ele achou que era traição. «Mas você não dá, ou melhor, dá, mas pra todo mundo! Merece era uma surra de espada de São Jorge.» [6]

Ontem me sequestraram do hotel onde eu estava porque segundo ele, “mulher não pode viajar ‘sozinha”. Tentei explicar que eu não estava sozinha, que viajava com uma amiga, mas ele contestou, mulher sem homem é sozinha. «Não é machismo, fale o que quiser, o que é, é, verme ou sangue bom tanto faz pra mulher» [7]

Ontem eu fui esfaqueada porque disse não às investidas dele. Ele insistia, mas amor por ele, não tinha. Eu não o queria e ele não queria ouvir. «Tô a fim de você, e se não tiver, você vai ter que ficar. Eu vim acabar com essa sua vidinha de balada e dar outro gosto pra essa sua boca de ressaca. Vai namorar comigo, sim! Vai por mim, igual nós dois não tem. Se reclamar, cê vai casar também!» [8]

Ontem eu fui atacada na sala de aula por um aluno que me disse: Você não sabe de nada! Só porque eu sou mulher! «Se ele te bate, é porque gosta de ti, pois bater-se em quem não se gosta, eu nunca vi»[9]

Imagem: CUT Brasília

Ontem eu morri no corpo de dezenas de outras mulheres que são estupradas, espancadas, dadas de comer aos cachorros. Ontem eu morri no corpo de dezenas de mulheres que tem seus corpos vilipendiados, humilhados, rasgados pelos desejos de homens que não sabem ouvir NÃO. «Você precisa é de um homem pra chamar de seu, mesmo que esse homem seja eu…» [10]

Hoje eu queria não morrer de novo, mas eu sei que vou. São 13 feminicídios diários no Brasil. 503 mulheres são espancadas a cada hora. Uma mulher é estuprada a cada 11 minutos. Dados A violência está no cotidiano, na televisão em horário nobre, nas músicas, nos comportamentos, nas redes sociais, na omissão da família.

Quantas mais precisarão morrer para que isso acabe? Quanto de luto ainda há para viver? Quanta luta ainda é necessária para vencermos o machismo nosso de cada dia?

Músicas citadas:

[1] Maria Chiquinha, Sandy e Junior. [2] Garota Nacional, Skank. [3] Amiga da minha mulher, Seu Jorge. [4] Pau que nasce torto, É o Tchan. [5] “Geni e o Zepelim” – Chico Buarque. [6] Trepadeira, Emicida. [7] Estilo Cachorro, Racionais Mc’s. [8] Vidinha de Balada, Henrique e Juliano. [9] Amor De Malandro – Francisco Alves. [10] “Mesmo Que Seja Eu” – Roberto e Erasmo Carlos.

 

 

*Edianne Nobre é uma leonina que nasceu em fevereiro. Gosta de contar histórias, viajar e tomar café.