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Marcos Bagno e sua defesa pelo reconhecimento do Português Brasileiro

(…) nós precisamos de uma política linguística interna, de valorização do Português Brasileiro, de ensino do Português Brasileiro, de educação linguística mais bem organizada, planejada e mais democrática também (…).

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[Marcos Bagno – No Café de Bule – Foto: Fernando Pereira]

Esteve recentemente em Petrolina, onde apresentou a palestra “Português Brasileiro: que língua é essa?”, o linguista, escritor e tradutor Marcos Bagno, doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), professor do Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília (UnB) e articulista da Revista Caros Amigos.

Na oportunidade Bagno concedeu entrevista ao nosso blog onde falou de sua defesa pelo reconhecimento da língua falada no Brasil, do ensino de Língua Portuguesa, Formação do professor de Letras, dentre outros assuntos, inclusive do momento atual que o país vive e das mudanças propostas para a educação pelo Governo de Michel Temer, o qual ele considera ilegítimo. confiram:

PC – O senhor defende a oficialização de uma nova língua, o português brasileiro, uma gramática brasileira, por quê?

MARCOS BAGNO – Na verdade eu defendo o reconhecimento de que a língua falada no Brasil pela maioria das pessoas seja reconhecida pelo que ela é de fato, porque tradicionalmente sempre se faz uma comparação com o português europeu e ele é sempre colocado lá em cima como a forma correta, bonita, porque eles são os donos da língua, etc. Então eu quero reverter essa maneira de ver a língua, mostrar que o português brasileiro é uma língua resultante de longos processos de mudança, ao longo dos últimos 500 anos, que ela tem hoje mais de 200 milhões de falantes, é uma das línguas mais faladas do mundo e que nós temos que valorizar e realmente usar o português brasileiro como nosso objetivo e objeto de sala de aula, parar de ficarmos ensinando coisas que ninguém fala, que ninguém usa e nos concentrarmos realmente na nossa língua.

PC – Como o meio científico absorve essa sua postura? São muitas as correntes contrárias ao seu pensamento?

MARCOS BAGNO – Na verdade não, a maioria dos linguistas brasileiros que vem trabalhando, fazendo pesquisas muito importantes nos últimos 30, 40 anos, também defendem o reconhecimento das características próprias do português brasileiro. O que eu faço e que é um pouco diferente dos meus colegas, é que eu dou um tom mais politizado para isso, então eu me aproveito dessas pesquisas para mostrar que a língua mudou, que nós temos que valorizar a nossa maneira de falar. Os colegas normalmente fazem as suas pesquisas, publicam, mas ficam restritos ao meio acadêmico, eu como sempre quero falar para um público mais amplo, então eu dou esse caráter mais politizado para minha obra.

PC – O senhor enxerga possibilidade de união linguística entre os países Lusófonos?

MARCOS BANO – Olha aí tem todo um problema, a começar da própria noção de lusofonia que é uma ideia muito mais interessante para os portugueses do que para nós, tanto que no Brasil as pessoas nem comentam sobre isso. Então Portugal, como é um país que ocupa uma posição muito periférica dentro da comunidade europeia, para poder se valorizar um pouco ele quer mostrar isso, que tem uma cultura, uma língua que é falada no mundo todo. É interessante, claro, que os países que tenham a língua oficial o português tenham ações conjuntas, façam projetos importantes conjuntos, mas no caso do Brasil, que é a minha preocupação, nós precisamos de uma política linguística interna, de valorização do Português brasileiro, de ensino do português brasileiro, de educação linguística mais bem organizada, mais bem planejada e mais democrática também.

PC – Como o senhor ver hoje o ensino de Língua Portuguesa. Como ensinar gramática normativa?

MARCOS BAGNO – A coisa já mudou há bastante tempo, por exemplo os vestibulares das grandes universidades já não tem mais aquelas perguntas centradas na gramática normativa. Eu sempre digo isso: a função da escola é levar as pessoas a se inserir na cultura letrada. Isso se faz por meio de leitura, escrita e reflexão sobre a língua. Nós não podemos gastar todo esse período que a pessoa passa na escola, pensando que um dia talvez ela vá querer fazer um concurso. Então o que eu digo é o seguinte: se o concurso ainda se baseia nessas ideias mais ultrapassadas, a pessoa aprende aquilo, decora, faz a prova e vai ser feliz. A função da escola é outra, não tem na a ver com isso, nós não podemos usar os concursos, por exemplo, como desculpa para não fazer uma educação linguística mais avançada, mais progressista.

PC – Como o senhor avalia a formação do professor de Letras?

MARCOS BAGNO – Olha, a minha avaliação é bastante negativa. Eu digo que o próprio nome Letras já mostra um apego a uma visão de mundo muito antiga, século XIX, Belas Letras, acho que nós já deveríamos estar pensando em coisas como ciências da linguagem, então a formação de professores me parece que ainda precisa ser repensada e refeita. Nós passamos muito tempo na universidade ensinando coisas que não são tão importantes e deixando de lado vários aspectos da vida profissional do docente que não são abordados, por exemplo, análise de livros didáticos, nós tínhamos que nos dedicar na universidade a levar os nossos estudantes a poder pegar uma coleção de livros didáticos, analisar, criticar, ver o que tem de bom, ver o que tem de não tão bom e isso não se faz. Também o conhecimento das políticas oficiais de ensino, precisava ser feito, então o curso de Letras precisa ser, na minha opinião, todo repensado e refeito para formar pessoas realmente que vão exercer a profissão docente.

PC – O que o senhor diria para os que dizem que a maioria do povo brasileiro fala errado? O que é falar errado?

MARCOS BAGNO – Pois é, eu também queria saber (risos..). Essa é uma ideia muito antiga que vem dessa visão da língua como só aquele modelo de língua super idealizado, inspirado nos usos dos escritores consagrados, de preferência portugueses, mortos há mais de duzentos anos. O que se criou na nossa cultura é uma ideia de que português é um rótulo que só se aplica para esse modelo de língua, extremamente restrito. Então essa ideia de que as pessoas falam errado deriva daí. Para a ciência da linguagem ninguém fala errado, todas as formas de falar tem uma explicação histórica, sociológica, então muitas vezes coisas que as pessoas consideram erro estão presentes na literatura medieval, na literatura clássica, até em Camões, em Camões você encontra a palavra ‘ingrês’, por exemplo, escrita com ‘r’, por que? Isso tem uma razão de ser. Então, principalmente da parte de quem vai ensinar, é preciso conhecer o funcionamento da língua, a história da língua, para não aplicar o rótulo de erro a fenômenos que tem uma explicação científica.

PC – A Prova Brasil e o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) são avaliações para diagnóstico, em larga escala, desenvolvidas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC). Têm o objetivo de avaliar a qualidade do ensino oferecido pelo sistema educacional brasileiro a partir de testes padronizados e questionários socioeconômicos. O que o senhor pensa desse sistema de avaliação?

MARCOS BAGNO – É uma coisa que tem dois lados bem diferentes. Claro que é interessante que a gente conheça o que está acontecendo na realidade educacional brasileira, então esses sistemas de avaliação podem servir para isso. Mas ao mesmo tempo, se cria uma cultura avaliativa que é a avaliação pela avaliação. Então as pessoas se preparam para ser avaliadas, quando na verdade não tinha que ser assim. Tinha que haver o ensino ponto e depois a avaliação para ver o que está acontecendo na educação. Mas nós temos essas coisas que vão se invertendo em nossa cultura escolar, infelizmente. Então surge essa cultura da avaliação, pessoas que ficam preparando os estudantes para serem avaliados para poder obter as notas e também há uma questão política econômica de perfil internacional, essa cultura da avaliação vem de fora, muitas vezes os processos avaliativos, o tipo de prova não tem a ver com a nossa cultura escolar, com a nossa realidade escolar, são projetos que vem de outros países que tem outra história educacional. Aquela famosa prova PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), por exemplo, ela é extremamente problemática, porque ela não se adapta as condições educacionais brasileiras, ela não respeita o nosso currículo, muitas vezes essas provas são meras traduções, então não é possível fazer esse tipo de coisa. A avaliação tem o seu lado positivo, mas também tem esse lado negativo de criar essa cultura avaliativa que é a avaliação por si mesma.

PC – O Brasil está vivendo um momento de turbulência econômica, política e social. Nesse contexto, propostas de mudanças promovidas pelo governo de Michel Temer na educação tem preocupado bastante. Entre essas mudanças está a Medida Provisória (MP) 746/2016 para reestruturação do ensino médio que tem provocado discussões no país inteiro. Como o senhor ver essa proposta? Quais os pontos dela que mais chamou a sua atenção?

MARCOS BAGNO – Olha vou ser bem sincero: qualquer coisa que venha desse governo merece ser criticado e repudiado, simplesmente porque é um governo ilegítimo, não foi eleito, ele está aí por meio de um golpe parlamentar, uma série de ilegalidades cometidas. Como é que você pode destituir uma presidenta que foi eleita e contra quem não há nenhuma acusação? Então eles depuseram, por depor, não tem nada que seja realmente mostrado, comprovado com relação a ela, o próprio Senado reconheceu que essas pedaladas não tem nada a ver com nada. Então tudo que vem desse governo, em princípio, não presta. E quando trata de educação, sabendo quem está hoje em dia no comando do Ministério da Educação, mais ainda. Então querer reformar o Ensino Médio de cima para baixo, sem consultar os educadores, sem consultar os professores, sem fazer um debate com a sociedade é um projeto extremamente autoritário que não pode ser aceito de jeito nenhum.

PC – O que pensa sobre o Projeto Escola sem Partido?

MARCOS BAGNO – A Escola sem Partido é um nome muito interessante, por que é sem alguns partidos, mas com outros partidos, porque não existe neutralidade. Se as pessoas falam Escola sem partido é porque elas tem na mente uma determinada forma de pensamento e elas querem que a escola siga o pensamento delas. Então Escola sem partido não existe, porque não existem pessoas sem partido, todo mundo tem uma posição política, mesmo que se diga apolítico, mesmo que a pessoa não para pensar nisso, toda postura social é uma postura política. Escola sem partido é uma contradição em termos, porque é impossível conquistar isso, e ela na verdade reflete um pensamento muito perigoso, um pensamento de extrema direita, a gente pode até dizer fascista mesmo, que está querendo demolir e sabotar a educação brasileira.

PC- Outra proposta do novo governo, e a mais contestada pelas correntes de esquerda do país, é a PEC 241 que congela gastos e investimentos públicos por 20 anos, atingindo setores importantes como a saúde e a educação. E que foi aprovada no congresso e agora será encaminhada para o Senado Federal. Como o senhor ver essa medida do Governo Temer e a sua aprovação no Congresso Nacional?

MARCOS BAGNO – A minha avaliação é muito simples: isso é um crime contra a humanidade. Você não pode tentar controlar a vida de toda uma geração futura e ainda mais nesse sentido, com uma política absolutamente desastrosa, a população vai aumentar daqui para a frente, então a gente precisa de mais investimento na educação e saúde, porque vai ter mais gente precisando, então essa proposta é simplesmente criminoso.

PC – Diante dessa situação de ameaça de perda de direitos, estudantes de todo o país estão se mobilizando e ocupando escolas, institutos federais e universidades. No momento são mais de mil escolas e universidades em todo o país, inclusive aqui no Vale do São Francisco. Que leitura o senhor faz desses movimentos?

MARCOS BAGNO – É um movimento absolutamente legítimo, e ele tem um caráter absolutamente revolucionário também na nossa história, a juventude está assumindo o seu papel de protagonista, está cobrando aquilo que são os seus direitos mesmo, ocupando espaços que pertencem a ela, então eu dou absoluto apoio e considero que é um movimento novo e instigante e tem que ser realmente levado adiante, porque é uma forma de resistência. Nós não podemos aceitar calados, imóveis, todas essas barbaridades que estão sendo cometidas por esse governo que assaltou o poder. Então uma maneira de fazer isso é resistir, ocupando os espaços e levando as nossas reivindicações para cada vez um público mais amplo.