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Fome, fracasso da humanidade

A má gestão e o desperdício são problemas que necessitam de revisão de estratégia. Por Pablo Pires Fernandes*

A situação global ainda merece observação.
A situação global ainda merece observação.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) ainda não divulgou este ano o relatório anual “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo”. O último levantamento, de 27 de maio de 2015, estima que 795 milhões de pessoas passam fome no mundo. Apesar de assustador, o número vem decrescendo nas últimas décadas, a despeito do crescimento populacional. Na última década, 167 milhões de pessoas deixaram esta triste condição, número que chega a 216 milhões se comparados com dados de 1990/1992, o que representa um decréscimo de 23,3% de mal nutridos para 12,9% da população mundial.

O sucesso dessa diminuição se deve, em boa parte, aos esforços dos países latino-americanos, com destaque para o Brasil e a Bolívia. De acordo com a ONU, o Brasil reduziu, entre 2002 e 2014, 82,1% o número das pessoas em insegurança alimentar no país. O Brasil está entre os países que conseguiram alcançar o Objetivo de Desenvolvimento do Milênio da ONU neste campo, que visava reduzir pela metade o número de subalimentados. Em 2014, o país deixou o Mapa da Fome da ONU.

A situação global, porém, ainda merece observação, com focos de agravamento em muitas áreas, sobretudo diante de conflitos armados. Guerra sempre foi sinônimo de fome. Historicamente, a Europa sabe bem do fato. Atualmente, a África, a Síria e países do Oriente Médio não conseguem obter progressos no combate a esta chaga devido a conflitos de várias causas.

Depois de progressos significativos na América Latina nas últimas décadas – embora tenha havido regressão nos últimos anos – a África ainda constitui o maior desafio no combate à fome, responsável por um quinto (232 milhões) da população faminta no mundo. A tragédia síria e os persistentes conflitos e desgoverno na África são responsáveis pelos focos mais graves de desnutrição no planeta.

Diante do quadro atual e apesar dos avanços, ainda é evidente a tragédia que constitui a existência em larga escala da fome no mundo. Chegamos à Lua, avançamos absurdamente no combate a doenças e no compartilhamento de informação e conhecimento em termos globais. Exatamente por isso, é inadmissível que, no século 21, tantas pessoas não tenham diante de si, diariamente, um prato de comida digno. É vilipendioso.

A má gestão e o desperdício são problemas que necessitam de revisão de estratégia. Chega a 1,3 milhão de toneladas o volume de alimentos jogados fora a cada ano, cerca de um terço da produção. No Brasil, 40 mil toneladas por dia. Há sugestões bastante promissoras nesse sentido, embora ainda distante da prática governamental – sobretudo o atualmente provisório, que insiste em anular as políticas do governo eleito, incluindo as de maior sucesso.

O caso é grave, do ponto de vista ético e da sustentabilidade do planeta. A tenção a esse problema tem, entretanto, merecido pouca atenção – uma poucas manchetes quando a ONU publica o relatório anual, geralmente, mas com vago acompanhamento pela mídia em geral.

Se compararmos com os gastos militares, fica clara a falta de vontade política e o tipo de prioridade dada pelos governantes mundiais, sobretudo os países desenvolvidos e tricôs em petróleo. Em 2015, o gasto militar mundial foi de R$ 5,51 trilhões (US$ 1,7 trilhão). Segundo a ONU, são necessários R$ 868,19 bilhões (239 bilhões de euros) por ano para erradicar a fome no mundo até 2030. O contraste é evidente, as conclusões, deixo para cada um.

Recentemente, o escritor e jornalista argentino Martín Caparrós publicou o livro “A fome” (Betrand Brasil). É resultado de uma pesquisa de quatro anos e viagens nas quais ele investigou as razões da fome em vários países. É um relato oportuno. Lança luzes sobre a relação entre a fome no mundo e o desperdício, mas, sobretudo, entre quem ganha com ela e ignora a humanidade mínima do próximo.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista