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Joãozinho e o petróleo

¨O petróleo era nosso. Agora nos restam os problemas”. *Por Helinando P. de Oliveira.

Foto: Reprodução

Joãozinho herdou do pai um terreno muito rico. Em sua fazenda jorrava petróleo e o plano de seu pai era de construir uma refinaria para ser autossuficiente na produção de gasolina. Assim, ele não precisaria mais pagar pelo combustível e manteria toda a vizinhança cobrando o preço de custo. Mas Joãozinho era adepto das regras do mercado e pouco se importava com os vizinhos. Ele queria o lucro fácil e o pouco trabalho. Assim que seu pai morreu, Joãozinho decidiu exportar óleo bruto e abandonar o projeto de desenvolver uma refinaria. Com o dinheiro da venda do óleo bruto (em reais) ele poderia investir em ações e viver apenas extraindo o petróleo.

O que Joaõzinho não previa era que o produto processado viria em dólares. E que o dólar era a moeda oficial para transações envolvendo o petróleo no mundo. Quanto mais escasso fosse o óleo, ou quanto mais bombas caíssem na Síria, mais caro ficaria o dólar e mais cara seria a gasolina do óleo do seu quintal.

E então Joãozinho passou a entender o tamanho da burrada que cometeu. Ele vendia em reais e comprava em dólares. Ele abriu mão da sua capacidade de processar a própria gasolina e beneficiar seus vizinhos, trazendo desenvolvimento para sua cidade. E a gasolina subiu, subiu e subiu.

A margem de lucro de Joãozinho foi caindo cada vez mais. O seu óleo ficara muito barato, enquanto que todo o resto subira, afinal a gasolina é o que move o mundo. E Joãozinho viu aquele cidade (próspera e rica) se tornar pobre e miserável, porque decidira entregar o que era seu para o capital externo. E o poço de petróleo enfim secou… O negócio de Joãozinho faliu. Ele não tinha sequer dinheiro para abastecer o velho automóvel deixado pelo pai. Entregou sua vida ao vício e pelas dívidas do bar vendeu tudo o que lhe restara.

E soube pelas conversas de mesa de bar que descobriram uma nova fonte de petróleo dentro do mar. Chamaram de camada de pré-sal. Joãozinho pegou um ônibus e foi a Brasília contar do seu caso. Pediu audiência com o ministro, com o presidente. Ele precisava contar a todos de sua miserável experiência, de que não podemos vender em real para comprar em dólar… Não podemos dar o que é nosso, porque isso é tudo o que temos. E no meio do caminho, Joãozinho foi parado por uma barreira de uma greve de caminhoneiros. Era tarde demais. O Brasil o havia copiado. Ao invés de miséria na cidade agora estávamos fadados a ter miséria em todo um país. O petróleo era nosso. Agora nos restam os problemas. Joãozinho agora pede esmolas pelas esquinas. Não tem teto, não tem nada. Nas noites de lua cheia, ele sai as ruas e declama o mesmo poema a plenos pulmões. Seu título é Renata, mas poderia se chamar Brasil.

 

Renata

Jansen Filho

“Quando foi rica e feliz,
Renata teve o que quis:
Beijo, carinho, esplendor!
Hoje arrasada e perdida,
Pelos banquetes da vida
Busca migalhas de amor!

Não dorme mais e nem come,
O mundo esqueceu seu nome!
É pobre! Não tem valor!…
A sua casa – o relento!
O seu leito – o calçamento!
E a lua – o seu cobertor!

Rolando pelas calçadas
Lateja, nas madrugadas,
Seu coração sofredor!
Ninguém mais lembra Renata,
Motivo de serenata
Daquelas festas do amor!

Mas longe da gente nobre,
Renata humilhada e pobre,
Tem hoje o tesouro seu:
– O espaço triste da rua,
A claridade da lua
E a sina que Deus lhe deu!

 

Jovens de agora, cuidado!
Este mundo é um poema errado
Que o destino compôs!
Nesta vida que caustica,
Há muita Renata rica
Que fica pobre depois”

 

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.