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Movimento negro exige em carta, retirada de campanha publicitária que considera racista, divulgada pela prefeitura de Juazeiro (BA)

“Queremos campanhas e ações de combate à pandemia. Não queremos campanhas racistas” diz a carta.

Foto: Reprodução internet

Uma carta pública foi divulgada pelo Movimento negro da cidade de Juazeiro, BA, no último dia 29, em que denuncia a prefeitura por divulgar uma campanha publicitária de combate a covid-19, considerada como racista. 

De acor do com o Movimento a prefeitura usou uma manequim negra em destaque, como exemplo de pessoa ‘irresponsável’, por não respeitar os protocolos de isolamento social e, consequentemente, ser responsável pela proliferação da Covid 19.

Para o Movimento Negro, a campanha pública, paga com recursos públicos, é considerada racista, quando usa personagens negros (as) como exemplo de pessoa ‘irresponsável’, por não respeitar os protocolos de isolamento social e, consequentemente, disseminar a doença.

Treze entidades que representam o Movimento negro de Juazeiro, entre elas o Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial, Compir,  assinaram a carta exigindo a imediata retirada da campanha publicitária.

Confira abaixo a carta na íntegra:

Movimento negro exige retirada de campanha publicitária racista divulgada pela prefeitura de Juazeiro (BA)

Queremos campanhas e ações de combate à pandemia. Não queremos campanhas racistas.

Queremos respeito! Nos últimos dias, a população negra de Juazeiro – que, segundo o IBGE/SIDRA corresponde a 73% – foi agredida publicamente pela Prefeitura Municipal com uma campanha de combate a pandemia por Coronavírus usando personagens negros (as), em destaque uma manequim negra, como exemplo de pessoa ‘irresponsável’, por não respeitar os protocolos de isolamento social e, consequentemente, responsável pela proliferação do Covid 19.

Nessa campanha pública, paga com recursos públicos, as mulheres negras são apontadas como irresponsáveis. Justamente um dos segmentos sociais que mais tem sofrido as consequências da falta de políticas públicas nesse um ano de pandemia. São as mulheres negras, as que mais perdem emprego e renda. Mas é a imagem de uma negra que a atual Prefeitura usa para representar as pessoas que fazem aglomerações e festas irregulares.

É preciso refletir sobre a armadilha semiótica dessa propaganda. A grande mídia e o poder público não questionam, por exemplo, o fato de que as pessoas que se aglomeram em transporte público – porque são obrigadas a trabalhar ou buscar o sustento – são negras. As expressões ‘irresponsável’, ‘erro’ e ‘culpa’ deveriam ser dispensadas ao Executivo Federal que, em um ano de pandemia, já está no seu quarto ministro de Saúde e, entre vários erros, permitiu que o número de óbitos ultrapassasse as 300 mil pessoas.

Os Movimentos Negros em Juazeiro têm desde o início da pandemia realizado campanhas não só de arrecadação de alimentos e materiais de higiene, mas promovido campanhas efetivamente educativas. Carros de som nos bairros, aulas públicas virtuais e outros conteúdos na internet são apenas alguns exemplos. Levamos pautas levadas às Prefeituras de Juazeiro (e também de Petrolina), desde abril de 2020, apresentando e explicando essas mesmas pautas em reuniões com as secretarias municipais, argumentando no sentido dos impactos benéficos de uma abordagem antirracista no combate à pandemia.

Em suma: os Movimentos Negros estão atuantes e alertas, e se colocando à disposição da luta contra a Covid-19 desde o início. Foram esses movimentos os responsáveis pela aprovação do Estatuto da Igualdade Racial e de Combate ao Racismo Religioso nas duas cidades!!!. Em plena pandemia conseguimos aprovar essas duas leis fundamentais no combate às desigualdades históricas, que explodem durante a pandemia.

A melhor maneira do atual Governo Municipal se redimir dessa demonstração explicita de racismo é retirando essa campanha de circulação e pedindo desculpas, publicamente, ao povo negro, substituindo-a por peças publicitárias realmente educativas e que efetivamente promovam uma diversidade real e respeitosa.

Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Juazeiro (BA) – Compir

Frente Negra do Velho Chico

Coletivo de Assessoria Jurídica Universitária Popular Luiz Gama – CAJUP/UNEB

Associação São Bartolomeu

Pérola Negra – UNIVASF

Núcleo de Arte e Educação Nego D´Agua – Naenda

Coletivo. Abdias de Teatro Negro

Conselho de Segurança Alimentar de Juazeiro

Grupo de pesquisas Rhecados – Hierarquizações raciais, Comunicação e Direitos

Humanos

Afoxé Filhos de Zaze

Coletivo Enxame

Coletivo Pretas, Pretos, LGBT+ e Periféricos”