Ciência & Sertão

Intervenção

‘Só que o povo do morro e de todo o país precisa é de uma intervenção artística, cultural, educacional… Precisamos abrir o coração do povo para a sua terra, suas raízes, seu passado.’ Por Helinando P. de Oliveira

imagem da internet

Eles viviam em paz e da terra tiravam todo o suprimento necessário para passar adiante seus costumes e tradições. Foi quando surgiu a primeira intervenção… E eles foram levados a trocar de língua e de religião… E por ironia do destino aquele dia terminou registrado nos anais da história como sendo o do descobrimento. Mas que descobrimento seria este? Os índios já estavam aqui. Esta terra era deles… E assim foram empurrados para o interior. E morreram de morte matada e de morte morrida.

No entanto, seus genes continuaram neste povo sofrido que foi também empurrado para os morros. Povo que continua a trabalhar como escravo para a mesma elite que sempre controlou o país.

E eis que mais uma intervenção toma corpo na vida do povo. Soldados com metralhadoras sobem os morros, ficham os habitantes e tentam manter a ordem.

A mesma ordem que é ditada pelo sistema econômico, que rasga os direitos, aniquila os sonhos, que mantem pobres cada vez mais pobres, estrutura populistas de direita e constrói a marginalidade, mantendo o povo cada vez mais próximo da criminalidade e do tráfico.

Só que o povo do morro e de todo o país precisa é de uma intervenção artística, cultural, educacional… Precisamos abrir o coração do povo para a sua terra, suas raízes, seu passado.

Há de se voltar para antes da primeira intervenção e reconstruir um vínculo da mulher e do homem com o seu lugar a partir da relação entre as pessoas.

Há a necessidade iminente de praticar o amor ao próximo, sair desta caixinha que insiste em nos imbecilizar alimentando o ódio nosso de cada dia.

Precisamos quebrar a matrix!
Utopia? Não!
Isto é postura.
E postura é assim, basta começar.
Que tal desligar a TV hoje à noite?
Acesse a informação por outro meio de comunicação…
Abandone a novela…
Saia e converse com alguém na rua…
Olhe para o céu, contemple as estrelas…
Tal qual faziam os índios…
Vamos começar tudo de novo?

* Helinando P. de Oliveira é físico e professor da Univasf. Desenvolve nanotecnologia no sertão desde 2004, quando escolheu ser sertanejo e focar suas pesquisas no Sertão.